quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

recesso

foto: Carla Vitta


Estaremos em recesso 
de 2 de março (domingo) à 9 de março (domingo).

gassho 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014



foto: Araquém Alcântara




A prática do zen não é fácil.


A prática do zen é o zazen.



Olhar para a parede, olhar para si mesmo.



É uma prática árdua, seca.



Sem músicas, sem induções, sem histórias, 


sem imagens, sem nada.


Apenas o nada.



Você com você.



A mente com a mente.



E tudo o que você precisa ver sua mente lhe 


mostrará.


(Monja Coen - palavras do Darma)

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Fluir


foto: Araquém Alcântara


Se cortarmos um tronco de árvore e o jogarmos num rio e ele não afundar ou apodrecer, nem ficar preso nas margens do rio, esse tronco irá com certeza chegar ao mar. A nossa prática é igual. Se você praticar de acordo com o caminho estabelecido pelo Buda, seguindo-o com rigor, você irá transcender duas coisas. Quais duas? 

Exatamente os dois extremos que o Buda disse não ser o caminho do verdadeiro meditador - entregar-se ao prazer e entregar-se à dor. Essas são as duas margens no rio. Uma das margens do rio é a raiva, a outra a cobiça. Ou você pode dizer que uma margem é a felicidade e a outra a infelicidade. O "tronco" é a mente. À medida que "fluir rio abaixo" ela irá experimentar a felicidade e a infelicidade. Se a mente não se apegar a essa felicidade ou infelicidade, chegará ao "oceano" de Nirvana. Você deve ver que não existe nada além de felicidade e infelicidade surgindo e desaparecendo. Se você não "ficar preso" nessas coisas, então você estará no caminho de um verdadeiro meditador.




Esse é o ensinamento do Buda. Felicidade, infelicidade, cobiça e raiva simplesmente existem na Natureza de acordo com a invariável lei da natureza. A pessoa sábia não os segue ou estimula, ela não se apega a eles. Essa é a mente que não se entrega ao prazer e não se entrega à dor. É a prática correta. E como aquele tronco de madeira irá finalmente chegar ao oceano, assim também a mente que não se apega a esses dois extremos irá inevitavelmente alcançar a paz.

(ensinamento de um monge tibetano)

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014





O Mestre iniciou:

Entrar no Absoluto exige deixar o particular pra trás. Nós nos desengatamos ou desapegamos. Esse desapego não é feito pela pessoa, é feito de uma pessoa.

Todo apego implica medo, a suposição equivocada que algo precisa ser segurado.

É só quando o punho da morte é aberto que a verdadeira liberdade de todo medo por ser conhecida.

Todo desejo acontece por causa de um senso equivocado de insuficiência.

Todas as realizações de desejos são como uma refeição de arroz: pouco tempo depois e você está com fome de novo. Quando você percebe que não falta nada, que tudo que há é você e é seu, o desejo termina.

Desmonte o pêndulo do medo e desejo.

O chão debaixo de você é a Fonte e o Apoio.


~ Wu Hsin, em “Behind the Mind (the Short Discourses of Wu Hsin)” (2012)


sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

A respiração


Foto: Araquém Alcântara




Respira  ação.  Ato de inspirar e expirar.  Inspirando toda a vida do universo. Compartilhando o ar e suas minúsculas partículas. Inspirando a alegria e a dor.

Inspirando amigos e desconhecidos. Não há inimigos.

Inspirando raivas, amores, ternuras, terrores.

Inspirando o odor das matas e das carniças. A fragrância das flores e das fezes que se tornam o húmus de onde surgem as pétalas suaves e perfumadas.

Inspirando o céu e todos os seus anjos.

Inspirando a Terra e todos os seus seres.

Inspirando dentro da terra e todos os seus gases, fogo, calores.

Inspirando seu corpo e seus cheiros.

Inspirando dentro de sua mente fragrâncias e fedores.

Em cada inspiração, toda a vida se manifesta. Somos a vida.

A inspiração só acontece se os pulmões estiverem vazios. Vazios de si. Vazios do outro. Vazios de intenção. Abertos a receber o novo.

Ar. Ar que entra e sai. Sai e entra. Renovado, sempre novo.

Expirar profundamente.

Expirar os medos e aflições.

Expirar a vida e a morte.

Expirar o sossego, a tranqüilidade
.
Numa rede, balançando, brisa fresca, solta ao vento. O ar que enchia os pulmões, que circulara pelas veias, células, artérias, órgãos e nos deixa cheios de ares.

Ares de importância, de ganância, de se achar. De se achar melhor que os outros. De criticar, abominar, odiar. Ares de se achar feio e insuficiente. Ares que penetram as entranhas. Ares que percorrem sinuosos canais e sem vitoriosos, livres a flutuar.

Expirando pensamentos, idéias, conflitos.

Expirando crianças e idosos. Expirando cães e lobas.

Expirando árvores e insetos. Expirando, todo o cosmos se esvazia e se abre. Abre-se ao novo.

Primeiro o vazio, o expirar. Sinta o ar em suas narinas. Qual é mais quente, qual é mais frio? O que entra ou o que sai?

Depois observe a barriga, abdômen, plexo solar. Ao inalar o ventre se expande, o ar preenche os pulmões, cada cavidade, até o ápice. Depois, tão rápido e ao mesmo tempo tão lento, vai saindo, esvaziando. De cima para baixo, do ápice à base. Exalando, exalando. Suave, sem pressa. Como se não tivesse mais nada a fazer.

Apenas respirar. Esvazia e preenche. Entra e sai. Sai e entra. Sinta o calor e o frio. Sinta o odor e o valor de cada partícula sagrada desse oxigênio que nos anima e nos faz rir ou chorar.

Basta, apenas, respirar.

Se estiver numa maré baixa, triste, deprimido, emburrado, com vontade de se drogar, beber ou fumar. Aquieta a mão. Segura um pouco. Faz uma flutuação. Como se tivesse nas mãos um cigarrinho enrolado, faz bico, puxa bem forte – o ar puro.

Unidos pelo mesmo ar. Respirando conscientes. Cientes do respirar.

Começa assim nossa cura. Quem respira sou eu ou é o ar?

Quando se vai além, cada instante inteiro é nosso.

A cada expiração, segue-se uma inspiração.

Inspiração de poesia, de literatura, de criatura que cria.

Depois expira.

Solta, se liberta. Livra-se de tudo. Purifica.

Recomeça.

Até que um dia apenas expira. Relaxa. Em que galáxia está a próxima inspiração? Todo o universo respira em cada uma de minhas-suas-nossas narinas.

(Monja Coen – Sempre Zen, aprender, ensinar e Ser)




quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

A felicidade não é uma questão individual





Não é preciso que você oculte a sua raiva. Você tem que deixar a outra pessoa saber que você está sentindo raiva e que está sofrendo. Isso é muito importante. Quando você se zangar com alguém, por favor, não finja que não está sentido raiva. Não finja que não está sofrendo. Se você ama a outra pessoa, confesse que está com raiva e que sofrendo. Mas diga isso a ela quando puder fazê-lo de um jeito calmo.

No verdadeiro amor, não existe orgulho. Você não pode fingir que não está sofrendo ou que não está sentindo raiva, porque esse tipo de negação se baseia no orgulho. "Com raiva? Eu? Por que eu sentiria raiva? Eu estou muito bem." Mas na verdade você não está bem. Você está no inferno. Quando a raiva nos está consumindo, precisamos dizer isso ao nosso companheiro, ao nosso filho ou filha. Sentimos muitas vezes vontade de dizer: "Não preciso de você para ser feliz!" Além de não ser verdade, esta frase é uma traição da promessa que fizemos ao nosso cônjuge e aos nossos filhos de compartilhar todas as coisas.

No início vocês disseram um ao outro: "Não posso viver sem você. Minha felicidade depende de você."  É possível que, com o desgaste, o amor acabe. Mas quando o amor permanece, e apesar disso o outro fez algo que provocou raiva, você é capaz de afirmar coisas como: "Não preciso de você. Não chegue perto de mim! Não me toque!" Você vai para seu quarto e tranca a porta, querendo demonstrar que não precisa da outra pessoa. Esta é uma tendência muito humana e comum. Mas não é sábia. A felicidade não é uma questão individual. Se um de vocês não está feliz, é impossível que o outro esteja. 

(Thich Nhat Hanh - Aprendendo a lidar com a raiva - sabedoria para a paz interior)

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Palavras do Darma




Eihei Dogen escreveu: "Se quiserem se libertar do sofrimento, devem manter a satisfação em suas mentes".

São as mesmas palavras de Buda em seu Discurso Final.

A satisfação é um estado mental, um estado de completude.

A pessoa satisfeita, dizia Buda, fica feliz mesmo dormindo no chão. A insatisfeita está infeliz mesmo dormindo num palácio maravilhoso.

(Palavras do Darma - por monja Coen)

sábado, 8 de fevereiro de 2014




Colorado - USA



Certa vez, Buda perguntou aos seus

discípulos:


- Quanto tempo vive uma pessoa?



- Sessenta anos? Disse um.



- Errou! Completou Buda.



- Setenta? Disse outro

.
- Não! Sentenciou Buda



- Cinquenta? Disse ainda outro


- Errou! Arrematou Buda



- Então, quanto tempo vive uma pessoa?


Disse o primeiro.


- A vida é apenas um sopro. Completou Buda

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014


foto: Teresa Sobreira



"Meditar não significa lutar contra um problema.

Meditar significa observar.

Seu sorriso é a prova.

Prova que você está sendo gentil com você mesmo,

Que o sol da consciência está brilhando em você,

Que você tem o controle da situação.

Que você é você mesmo,

E está em paz."



Thich Nhat Hanh

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A ponte

face book Sebastião Salgado


Certa vez, folheando os anais dos monges Zen da dinastia T'ang, ao ler o provérbio "Ajudar burros a atravessar, ajudar cavalos a atravessar", fiquei muito surpresa pela semelhança do provérbio com meu trabalho. Devo ser como uma ponte, possibilitando a todos atravessar. No grupo que dirijo, existem pessoas em diferentes estágios de prática e, mesmo monges, são pessoas comuns, com momentos de delusão. Estas palavras surgiram quando ainda tinha muitas dificuldades na função, e elas passaram a ser um preceito para mim.

Anos mais tarde, quando soube que o Imperador Showa escolhera a palavra "ponte" para o tema de poesias de Ano Novo, na festa do Palácio Imperial, lembrei-me do provérbio. Não fui convidada para a festa, mas escrevi um poema sobre o tema, incorporando o provérbio.

Ajudar burros a atravessar 
Ajudar cavalos a atravessar: 
Gostaria de ser esta ponte, 
Entretanto, estou sendo ajudada a atravessar.


Durante a dinastia T'ang, na China, o grande mestre Zen Joshu Jushiro Zenji era abade do templo Kannon-in. Para chegar ao seu templo era necessário cruzar uma ponte, que foi chamada de Ponte de Joshu. Certa vez um monge noviço perguntou: "A Ponte Joshu, o que é?" Ele não estava mencionando a ponte para se chegar ao templo, mas sobre a prática budista de Joshu. Joshu respondeu: "Passa burro, passa cavalo."

Há pessoas das quais gostamos e pessoas das quais não gostamos, amigos e inimigos.

Pela ponte passam pessoas boas como Budas, como também ladrões, assassinos, gente perversa e louca. A todos permite atravessar, sem pedir nada em troca, sem selecionar. Há quem reclame "que ponte ruim, que ponte mal feita, difícil de passar", vão reclamando, batendo os pés, dando chutes, e pode haver até aqueles que urinem na ponte. Poucos atravessam com gratidão dizendo "Obrigada" ou "Graças a você pude atravessar". Seja qual for a maneira que atravessem, a todos a ponte permite passar sem fazer discriminação. Joshu em sua prática de grande bodisatva‚ o símbolo dessa ponte, a imagem dessa ponte.

E eu? Cavalo atravessa... Burro não... Pessoa que gosto sim, pessoa que não gosto não. Fico escolhendo, selecionando de acordo com minhas conveniências. Quero que me elogiem "Que ponte bonita!", "Obrigada", "Graças a você". Fico mal humorada e não quero deixar atravessar aqueles que me xingam ou urinam na ponte.

No meu trabalho encontro sempre monjas, noviças, praticantes leigos e tenho de lembrar-me sempre do provérbio "Ajudar burros a atravessar/ Ajudar cavalos a atravessar", como se estivesse inúmeras vezes invocando o nome de Buda. Certo dia ocorreu-me que ser uma ponte não era suficiente... Mesmo que poucas pessoas utilizem o Ponte do Budismo, preciso fazer com que as pessoas deludidas percebam a Outra Margem, e que é necessário atravessar esta ponte.

Talvez sejam muitos os que não saibam que há uma Outra Margem. É preciso despertar neles o desejo de alcançá-la: se querem fama, dar-lhes fama; se querem pão, dar-lhes pão; se querem dinheiro, dar-lhes dinheiro; se querem relacionamento, dar-lhes relacionamento, até perceberem que este é um universo maravilhoso. Para isso é preciso ter o coração de avós bondosos, ser capaz de despir o hábito monástico, sujar as mãos com excrementos, estar entre todos, chorar, ficar deludido, rir juntos, até fazê-los perceber o Verdadeiro Caminho e puxá-los para cá.

Esse é o meu voto simbolizado pelas trinta e três faces e cem corpos de Kanon. Está escrito no Sutra de Kanon: "Nas terras do universo não há local onde não se manifeste." Sempre e em toda parte, a atividade de Kannon se revela. Abrindo o olho do coração-mente, vejo que a pessoa da qual penso não gostar existe para que eu perceba meu próprio ego - é Kanon se revelando. Doente, fracassada ou separada de quem amo devo abandonar minhas auto-indulgências e perceber que a verdade da vida é atividade de Buda.

Vendo tudo pela perspectiva de Buda fiquei envergonhada da minha própria arrogância e pude perceber que ao invés de ser uma ponte, estou sendo ajudada a atravessar.

Do livro "Utsukushi Hitoni, da Rev. Shundo Aoyama Roshi, Abadessa do Mosteiro Aichi Senmon Nisodo (Nagoya - Japão)



terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Qual é esse lugar do qual não devemos escapar?


Aqui e agora, não devemos escapar de nós mesmos. Eu falo sempre de “aqui e gora”, noção muito importante. Por exemplo, você sempre pensa: “Meu trabalho não está perfeito hoje, tenho de pensar no futuro, eu não sou feliz...” Você nunca está contente no momento presente; entretanto, é aqui e agora que importa. Se você não espera mais com impaciência o gongo que anuncia o fim do zazen. Se você ficar realmente concentrado, uma hora e um minuto são idênticos. A verdade é aqui e agora. Quando você está comendo, ela está na sua comida. Quando toma café, está no seu café, na sua mesa. A verdade está nas montanhas, nos rios, no céu, nos campos, nas ruas, no metrô... Em toda parte.

Eu costumo dizer que a verdade também está nos banheiros. Os banheiros são verdadeiro dojô (*). Quando você cozinha, a cozinha torna-se um dojô. O restaurante onde você come também é um dojô. Em toda parte, em qualquer lugar, a sua postura é importante, o modo como você come, o que você diz... O Caminho está em toda parte, debaixo dos seus pés.

(*) dojô – lugar onde se pratica  meditação zen


(Yoka Daishi – Shodoka – O canto do Satori imediato – tradução e comentários Mestre Taisen Deshimaru Roshi).

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Transformações na consciência


foto: Lou Gaioto



“Nossa mente é um campo no qual é plantado todo tipo de semente – sementes de compaixão, alegria e esperança, sementes de tristeza, medo e dificuldades. Diariamente nossos pensamentos, palavras e ações plantam novas sementes no campo da nossa consciência, e o que essas sementes geram tornam-se a substância da nossa vida.

(...)
No campo da mente existem sementes saudáveis e não saudáveis plantadas por nós mesmos e pelos nossos pais, pela escola, pelos ancestrais e pela sociedade. A prática da plena consciência nos ajuda a identificar todas as sementes que se encontram na nossa consciência e, com esse conhecimento, podemos escolher regar apenas aquelas que são mais benéficas.

(...)
É importante escolher cuidadosamente com quem passamos nosso tempo. Quando conversamos com alguém que é infeliz, nossa consciência armazenadora recebe as sementes do seu sofrimento. Se não tivermos o cuidado de manter nossas sementes saudáveis durante a conversa, o sofrimento dessa pessoa vai regar as sementes de sofrimento que estão em nós e nos sentiremos exauridos.

(...)
Por este motivo, precisamos nos acercar daqueles que regam as sementes de alegria que estão em nós. Não quer dizer que queremos discriminar ou preterir os que sofrem, mas quando nossas próprias sementes sadias ainda são fracas, temos necessidade de nos cercar de amigos que reguem as sementes de paz, saúde e felicidade em nós. Quando as sementes de paz e felicidade se tornam mais solidamente estabelecidas dentro de nós, podemos dar uma ajuda maior aos que sofrem. Precisamos saber quando estamos fortes o suficiente para ajudar, do contrário seremos esmagados pelas sementes difíceis da outra pessoa”.

TICH NHAT HAHN, em “Transformações na Consciência”.

Arte: Hugo Pullen