sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Os Preceitos

 
Foto: João Antônio

Certa vez, um aluno meu reclamou: "Estou praticando zazen com você há muitos anos, mas até agora meu estágio meditativo não evoluiu muito, nem houve nenhuma boa transformação  em minha vida." Quando perguntei a ele sobre a sua prática dos cinco preceitos, ele disse: "Ah, não! Eu sou livre, não quero saber dos preceitos. Só faço zazen!". Geralmente as pessoas têm uma incompreensão sobre o significado dos preceitos. Elas pensam apenas no aspecto restritivo. Não faça isto, não faça aquilo. Porém, os preceitos são como uma espécie de "salvaguarda", especialmente enquanto nossos olhos ainda não se abriram o suficiente e nosso andar é, consequentemente, trôpego. Por exemplo, muitas pessoas refletiram bastante sobre o tráfego e criaram sinaleiras com todas aquelas luzes coloridas. A luz vermelha significa: o carro deve parar; assim os pedestres podem atravessar de modo seguro a via até o outro lado. Se um motorista não liga para as luzes dizendo: "Ah! Eu sou livre, não quero nem saber, posso fazer o que bem quiser..." Então o que acontece? BUUUMMM!!!". Não há segurança para este motorista, nem para o pedestre. O mesmo ocorre com os preceitos budistas, eles tornam o nosso caminho seguro. O Buda nunca diz: "Pare!" ou "Não faça isto!". Ele diz: "Se você mantiver e fizer algum esforço para viver os preceitos, será mais seguro e fácil para você dar os seus passos no seu caminho até a iluminação". Você decide se fará isto ou não, mas já sabe que os preceitos podem ajudar você e as pessoas que estão lhe acompanhando. Assim, os preceitos mostram uma boa direção, uma senda segura, a senda da virtude, para você trilhar. 

(Primeiros Passos no Zen - Mestre Zen Moriyama Roshi)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Intersomos


Samsara

Foto: Lou Gaioto


"Samsara não é um lugar, não é o planeta Terra, não é a existência humana, não é nada disso. O Samsara é esse jeito de ser, em que ficamos perambulando por aí, feito cachorro de rua, sem rumo, fundamentalmente deludidos, agindo a partir do desejo e da hostilidade. Sem amadurecer, sem florescer, sem cultivar a verdadeira felicidade, saltando de uma lado para o outro, até a morte finalmente chegar."

Alan Wallace (Texto retirado de Budismo Petrópolis)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Caminho Óctuplo


Foto: João Antônio

Os Oito Nobres Caminhos compreendem: percepção correta, pensamento correto, fala correta, comportamento correto, meio de vida correto, esforço correto, atenção correta e concentração correta.

Percepção Correta inclui: compreender cabalmente as Quatro Verdades, acreditar na lei da causa e efeito e não ser enganado pelas aparências e desejos.

O Pensamento Correto significa a resolução de não nutrir desejos, de não ser ganancioso, de não ser irritadiço e de não perpetrar atos nocivos.

A Fala Correta significa evitar as palavras falsas, inúteis, abusivas e ambíguas.

O Comportamento Correto significa não destruir nenhuma vida, não roubar ou não cometer adultério.

O Meio de Vida Correto significa a vida que possa envergonhar um homem.

O Esforço Correto significa dar o melhor de si, com diligência, para realizar nobres ações.

A Atenção Correta significa manter a mente pura e atenta.

A Concentração Correta significa manter a mente correta e tranquila, procurando compreender a sua pura essência.

(A Doutrina de Buda - Siddharta Gautama)

sábado, 23 de janeiro de 2016

Voto do Bodhisattva


 
Foto: João Antônio


Ciente do sofrimento causado pela destruição da vida, eu me comprometo a cultivar a compaixão e a aprender maneiras de proteger a vida das pessoas, dos animais, das plantas e dos minerais. Estou determinado a não matar, a não deixar que outros matem e a não tolerar qualquer ato de carnificina no mundo, no meu pensamento e no meu modo de vida.

(voto do Bodhisattva - com base no Avatamsaka Sutra - Thich Nhat Hanh)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Correndo no lugar

foto: João Antônio

 
Falo com muitas pessoas e fico sempre triste ao constatar que não vemos o que são nossa vida e nossa prática. Ficamos confusas a respeito dos elementos básicos da prática e desviamo-nos por vias secundárias, seduzidas por toda espécie de noções incorretas a respeito. Sofremos na mesma medida em que ficamos confusas ou nos deixamos levar por atalhos.

A prática pode ser enunciada em termos muitos simples. Trata-se de sair de uma vida em que causo mágoas a mim e aos outros, para levar uma vida em que não magoo ninguém. Parece muito simples, exceto quando, em lugar da prática real, inserimos alguma ideia de que deveríamos ser diferentes ou melhores do que somos, ou que nossas vidas deveriam ser diferentes do que são. Quando colocamos ideias a respeito do deveria acontecer (noções como "Não deveria ficar com raiva, confuso, indisposto") no lugar do que nossa vida é verdadeiramente, perdemos a base e nossa prática fica estéril.

Vamos supor que nos interessa saber como se sente um corredor de maratona: ao corremos dois quarteirões, três ou sete quilômetros, iremos saber um pouco do que seja, correr tais distâncias, mas ainda não saberemos nada sobre o que é correr uma maratona. Podemos ditar regras a respeito; podemos descrever tabelas a respeito da fisiologia dos maratonistas; podemos coletar inúmeras informações sobre essa espécie de corrida; porém isso não significa que saibamos o que é. Só podemos saber, quando formos aquele que corre. Só conhecemos nossa vida, quando a vivenciamos de modo direto, em vez de sonhar com o que poderia acontecer se fizéssemos isso ou aquilo. E a isso que chamo correr no lugar, estar presente do jeito que eu sou, exatamente aqui e agora.

O primeiro estágio da prática é conscientizar-se de que não estamos correndo no lugar, que estamos sempre pensando em como nossa vida deveria ser (ou como era antes). O que há em nossa vida neste preciso momento que desejamos evitar? Tudo que for repetitivo, monótono, doloroso ou infeliz; não queremos correr no lugar com isso. Não mesmo! O primeiro estágio da prática é darmo-nos conta de que raramente estamos presentes, de que não estamos vivenciando a vida, de que estamos pensando sobre ela, conceituando-a, elaborando opiniões a seu respeito. Assusta correr no lugar. Um componente primordial da prática é perceber até onde esse medo e essa pouca vontade nos dominam.

Se praticarmos com paciência e persistência, entraremos no segundo estágio. Começamos aos poucos a tomar consciência das barreiras de ego existentes em nossa vida: os pensamentos, as emoções, as evasivas, as manipulações, a todas essas facetas podem ser agora observadas e objetivadas com mais facilidade. Essa objetivação é dolorosa e reveladora, mas se prosseguirmos, as nuvens que obscurecem o panorama ficarão mais tênues.

E qual é o terceiro e crucial estágio curativo? É a experiência direta de todo e qualquer panorama que nos apresente a vida, num dado instante, enquanto corremos no lugar. Tão simples assim? Sim. Fácil? Não.

Lembro-me de uma manhã de sábado em que adiamos em vinte minutos o horário marcado para a prática, a fim de que alguns participantes pudessem andar uns poucos quarteirões até um trecho em que se pudesse gozar a grande oportunidade de ver os atletas da maratona de San Diego passando. As 9:05 h, eles apareceram. Fiquei admirada com a qualidade fluída dos movimentos do líder, embora estivesse nos últimos quilômetros, ele simplesmente deslizava. Não era difícil apreciar sua técnica de corrida; e quanto a nós: onde é que temos de correr no lugar? Temos de praticar conosco tal como estamos, neste exato momento. E uma inspiração assistir a corrida de um atleta da melhor qualidade, mas não é nada útil pensar que deveríamos ser daquele jeito. Temos de correr onde estamos, temos de aprender aqui e agora, partindo do ponto em que estamos, aqui e agora.

Jamais crescemos se sonhamos com um estado futuro maravilhoso ou lembrando feitos passados. Crescemos sendo o que somos e estando onde estamos, vivenciando nossa vida tal como ela é, exatamente agora. Precisamos experimentar nossa raiva, nosso pesar, nossos fracassos, nossa apreensão, e eles podem ser nossos professores, quando não nos afastamos deles. Quando fugimos do que nos é dado, não podemos aprender tampouco crescer. Isso não é nada difícil de entender, embora seja difícil de executar. Os que persistem, contudo, serão os que crescerão em seu entendimento e em sua compaixão. Por quanto tempo é necessária essa prática? Para sempre.
 Texto de Charlotte Joko Beck, extraído do livro"Sempre Zen"

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Lavando os pratos


“Enquanto estiver lavando os pratos, deveríamos apenas lavar os pratos, o que quer dizer que enquanto lavamos os pratos deveríamos estar completamente conscientes do fato que estamos lavando os pratos. Parece meio bobo assim à primeira vista: porque dar tanta preocupação para uma coisa simples? Esse é exatamente o ponto. O fato que eu estou lá em pé lavando aqueles pratos é uma realidade incrível. Estou sendo completamente quem sou, seguindo minha respiração, consciente da minha presença, e consciente dos meus pensamentos e ações. Não há como ser lançado dali inconsciente como se fosse uma garrafa batendo nas ondas aqui e ali. 


imagem Trocatrocafashion.com.br


Se enquanto estivermos lavando os pratos pensarmos somente na xícara de chá que nos espera, assim apressando a lavação dos pratos que eu possa me livrar deles como se fossem um transtorno, então não estamos “lavando os pratos para lavar os pratos”. Mais que isso, não estamos nem vivos durante o tempo que estamos lavando os pratos. Na verdade, estamos completamente incapacitados de perceber o milagre da vida enquanto estamos ali na pia. Se não conseguimos lavar os pratos, há grandes chances de não conseguirmos tomar nossa xícara de chá também. Enquanto tivermos bebendo o chá, estamos pensando em outras coisas, dificilmente conscientes da xícara em nossas mãos. Assim somos sugados para o futuro — e incapazes de viver sequer um único minuto de vida.”



– Thich Nhat Hanh, em “O Milagre da Atenção Plena (The Miracle of Mindfulness) texto retirado do site dharmalog.com

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Votos dos Fazedores da Paz



"Quando realiza a completude e a interdependência da vida, você precisa cuidar de todos e, para o fazer, precisa trabalhar com cada ingrediente da vida"

Bernie Glassman Rôshi

 
Foto: Lou Gaioto


Regra da Ordem Zen dos Fazedores da Paz

Eu me comprometo aos Três Tesouros:
Unidade, a natureza desperta de todos os seres;
Diversidade, o oceano de sabedoria e compaixão;
Harmonia, a interdependência de todas as criações.

Eu me comprometo com os Três Preceitos Puros:
Não saber, abandonando ideias fixas sobre eu mesma(o) e o universo;
Testemunhar a alegria e o sofrimento do mundo;
Agir amorosamente.

Eu me comprometo aos seguintes Dez Preceitos:
Reconhecer que não estou separada(o) de tudo o que existe. Este é o preceito de Não Matar;

Ficar satisfeita(o) com o que tenho. Este é o Preceito de Não Roubar;

Encontrar todas as criações com respeito e dignidade. Este é o Preceito de Conduta Casta;

Ouvir e falar do coração. Este é o Preceito de Não Mentir;

Cultivar a mente que vê claramente. Este é o Preceito de Não Delusão (não ficar intoxicada/o);

Incondicionalmente aceitar o que cada momento tem a oferecer. Este é o Preceito de Não Falar Mal dos Erros e Faltas Alheios;

Falar o que percebo ser a verdade sem culpa e sem culpar. Este é o Preceito de Não Me Elevar e Rebaixar os Outros, de Não Me Rebaixar e Elevar os Outros e de Não Me Igualar;

Usar todos os ingredientes da minha vida. Este é o Preceito de Não  ser Movida(o) pela Ganância;

Transformar sofrimento em sabedoria. Este é o Preceito de Não Ser Controlada(o) pela Raiva;

Honrar minha vida como um instrumento de fazer a paz. Este é o Preceito de Não Falar Mal dos Três Tesouros.

E também faço os seguintes Quatro Comprometimentos. Eu me comprometo a:

Uma cultura de não violência e reverência à vida;
Uma cultura de solidariedade e ordem econômica justa;
Uma cultura de compreensão e vida baseada na verdade;
Uma cultura de direitos iguais e companheirismo entre mulheres e homens.

(ZAZEN - A prática essencial do zen - Comunidade Zen Budista Zendo Brasil)

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Qual é a atitude budista em relação aos projetos sociais?

foto: João Antônio

Os projetos sociais são ótimos e necessários. Como budistas, tentamos desenvolver o amor e a compaixão pelas pessoas em um nível mental, mas isso também deve ser expressado em ações. Sua santidade o Dalai Lama, comentou muitas vezes que os budistas podem aprender com o exemplo cristão de compaixão ativa por meio do envolvimento em projetos comunitários. A criação de escolas, asilos e serviços de aconselhamento e alimentação para pessoas carentes é benéfica. Contudo, quando nos engajamos nesse trabalho, devemos evitar o sectarismo, o orgulho e a raiva. Tanto as nossas atitudes quanto as nossas ações devem visar ao bem dos outros.

As pessoas têm temperamentos e talentos diferentes. Algumas se concentram em estudar e ensinar enquanto outras trabalham em prol da sociedade e outras, ainda, meditam. Apesar do fato de que nem todos os budistas participam de projetos sociais, aqueles que o fazem podem praticar o Dharma nesse contexto.


(Thubten Chodron - O que é o Budismo)


Arte: Hugo Pullen