segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Prostração



Foto: Lou Gaioto


Qual é o significado da nossa prática de prostrações? Desde eras primevas, muitos cultos pré-religiosos vieram à luz. Rituais mágicos, fetichismo, xamanismo, como qualquer religião, todos têm a sua maneira própria de cultuar. É natural.

No início do budismo havia apenas a divulgação dos ensinamentos do Buda, sem uso de qualquer símbolo. Depois da morte do Buda estudiosos dos Sutras quiseram criar símbolos visíveis, e começaram esculpir estátuas, inspirando com isso até mesmo a arte helênica. Um estátua de Buda é um símbolo do que aspiramos por nos tornar no âmbito da compreensão do ideal budista. Eu sempre ensino que a mensagem do budismo é simplíssima, pois diz apenas que cada um de nós já é um Buda. Cada um traz dentro de si a condição desperta de um Buda, no entanto nossa mente está momentaneamente distraída com os fenômenos, como se nossos olhos estivessem obstruídos, cobertos pelo espesso véu das ilusões. Através da prática, o véu pode ser dissipado, revelando-se, então, a nossa verdadeira e original condição iluminada.

Mestre Dogen diz: "Buda é o seu próprio eu verdadeiro". Isso quer dizer que, quando nos prostramos ante uma estátua de Buda, nós reverenciamos a nossa própria condição iluminada, aquela que já possuímos. Por enquanto, ela está apenas "gestando", mas estará pronta para nascer através de nossa prática.

(Primeiros passos no Zen - Mestre Zen Moriyama Roshi)

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Desenvolvimento pessoal: a quem beneficia? por Matthieu Ricard





Foto: EBC


Hoje em dia, fala-se cada vez mais e mais sobre “desenvolvimento pessoal”, uma expressão que é utilizada de forma muito vaga e adaptada a cada pretexto; tornou-se uma espécie de cesto de bugigangas, que não faz distinção entre uma fórmula de sete passos para atrair os outros e tornar-se feliz em uma semana, e textos que buscam fazer brilhar a luz interior, a fim de se tornarem seres humanos melhores. Estes textos são baseados em métodos enraizados, não nas últimas modas, mas em tradições de sabedoria praticadas durante milhares de anos por indivíduos que dedicaram a maior parte de suas vidas ao seu cultivo.

“Hoje, quando falamos de desenvolvimento pessoal, quase sempre o que é proposto são mudanças cosméticas que procuram mimar as nossas tendências narcisistas, em vez de erradicar as nossas falhas e dissipar o nevoeiro da nossa confusão mental.”

Dentro das tradições de sabedoria globais, quer tenham origens religiosas, espirituais ou humanísticas, a auto-transformação nada tem a ver com o agradar o ego ou a prossecução dos seus caprichos. Em vez disso, a auto-transformação deve ajudar-nos a tornar-nos gradualmente melhores seres humanos através do trabalho duro. Esta afirmação pode parecer pretensiosa no início, contudo a verdadeira meta da auto-transformação é erradicar a animosidade, o apego obsessivo, a falta de discernimento, a arrogância, o ciúme e outros venenos mentais, que perturbam a nossa vida e a dos outros. Não é uma tarefa fácil.

Portanto, isto não é nem um compromisso de curto prazo, nem uma abordagem auto-centrada, nem um meio de fuga, onde aprendemos a abraçar as nossas falhas e dispensar os esforços para as remedia-las. Acima de tudo, devemos nos perguntar quem se beneficiará deste “desenvolvimento pessoal”. Se é só a gente, então é um completo desperdício de tempo. A auto-transformação só é significativa se nos permitir, fundamentalmente, ser de maior serviço aos outros. Desenvolvimento pessoal sem bondade, é nada mais do que a construção de uma torre de marfim de egocentrismo. Meditação sem bondade-amorosa é equivalente a passar alguns momentos de silêncio na bolha do nosso próprio ego.

“A auto-transformação só é significativa se nos permitir, fundamentalmente, ser de maior serviço aos outros.”

A transformação pessoal deve nos ajudar a mudar da confusão para o conhecimento, da escravidão para a liberdade interior. Seu objetivo é realizar o bem-estar dos outros. Há um ensinamento budista que diz: “O que não é feito para o bem dos outros, não merece ser feito em primeiro lugar.” Não diga que não foi avisado!


Estes poucos pensamentos vieram até nós seguindo a publicação de (“Three Friends in Search of Wisdom”) 

Somos as chaves que abrem as portas da vida - Monja Coen








terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Trabalhando Duro



Foto: João Antônio





Um discípulo foi ao seu mestre e disse fervorosamente:
"Eu estou ansioso para entender seus ensinamentos e atingir a Iluminação! Quanto tempo vai demorar para eu obter este prêmio e dominar este conhecimento?"
A resposta do mestre foi casual:
"Uns dez anos..."
Impacientemente, o estudante completou:
"Mas eu quero entender todos os segredos mais rápido do que isto! Vou trabalhar duro! Vou praticar todo o dia, estudar e decorar todos os sutras, farei isso dez ou mais horas por dia!! Neste caso, em quanto tempo chegarei ao objetivo?"
O mestre pensou um pouco e disse suavemente:
"Vinte anos."

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Cada tempo em seu lugar - Gilberto gil




Preciso refrear um pouco o meu desejo de ajudar
Não vou mudar um mundo louco dando socos para o ar
Não posso me esquecer que a pressa
É a inimiga da perfeição
Se eu ando o tempo todo a jato, ao menos
Aprendi a ser o último a sair do avião

Preciso me livrar do ofício de ter que ser sempre bom
Bondade pode ser um vício, levar a lugar nenhum
Não posso me esquecer que o açoite
Também foi usado por Jesus
Se eu ando o tempo todo aflito, ao menos
Aprendi a dar meu grito e a carregar a minha cruz

Ô-ô, ô-ô
Cada coisa em seu lugar
Ô-ô, ô-ô
A bondade, quando for bom ser bom
A justiça, quando for melhor
O perdão:
Se for preciso perdoar

Agora deve estar chegando a hora de ir descansar
Um velho sábio na Bahia recomendou: "Devagar"
Não posso me esquecer que um dia
Houve em que eu nem estava aqui
Se eu ando por aí correndo, ao menos
Eu vou aprendendo o jeito de não ter mais aonde ir

Ô-ô, ô-ô
Cada tempo em seu lugar
Ô-ô, ô-ô
A velocidade, quando for bom
A saudade, quando for melhor
Solidão:
Quando a desilusão chegar


(Letra - www.vagalume.com.br)

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Viver no presente

Foto: João Antônio


O nascimento de um homem é o nascimento de sua dor. Quanto mais ele vive, mais estúpido se torna, porque sua ansiedade para evitar a morte inevitável torna-se mais e mais aguda. Que amargura! Ele vive por aquilo que está sempre fora do seu alcance! Sua sede de sobreviver no futuro faz com que seja incapaz de viver no presente. (Chuang-Tsu)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Vida Simples





Povo Munduruku - PA - foto: Frei Sebastian Robledo


"Uma vez perguntaram ao mestre Buda porque tão poucas pessoas iluminadas existiam. Será que é tão difícil assim perceber a própria iluminação?

Buda respondeu: “Faça uma experiência. Vá ao vilarejo mais próximo e durante todo o dia pergunte a diversas pessoas o que elas mais querem na vida”. Eis que o discípulo foi e voltou no fim do dia para falar com o mestre.

“Conversei com muitas pessoas. Muitas respostas. Algumas querem um bom casamento, outras desejam muito dinheiro, outras almejam fama e poder, e ainda outras querem prestígio, reconhecimento...”

Então Buda respondeu: “Já tens tua resposta. Muito poucas pessoas desejam a iluminação, que é simplesmente uma vida natural e simples. Tão natural que a paz que procuram já está no vento que sopra, no ar que respiram, na nuvem que passa, no sol que aquece, e na chuva que molha".


(Silêncio Divino) 

Sutra do Coração


quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

A dança das abelhas

Foto: Ricardo Takamura



Somos aquilo que sentimos e percebemos. Se estamos zangados, somos a raiva. Se estamos apaixonados, somos o amor. Se contemplamos um pico nevado, somos a montanha. Ao assistir a um programa de televisão de baixa qualidade, somos o programa de televisão. Enquanto sonhamos, somos o sonho. Podemos ser qualquer coisa que quisermos, mesmo sem uma varinha mágica. 


Extraído do livro "O sol meu coração" de  Thich Nhat Hanh

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O agradável





Foto: Luis Jungmann Girafa


1. Aquele que se entrega às distrações da mente e não se dedica à prática da mente atenta, renuncia ao caminho do seu próprio bem-estar. Agarrando-se aos prazeres mundanos, esquecendo-se do seu verdadeiro propósito, ele inveja o homem que se dedica à meditação.

2. Evite o apego tanto ao agradável quanto ao desagradável. Tanto o apego quanto a aversão conduzem ao sofrimento.

3. Não se prenda à coisa alguma. A perda do que nos é caro traz sofrimento, mas não há prisão àqueles aos quais nada é caro ou detestado..

4. Do apego emana o sofrimento. Do apego aflora o medo. Para aquele que se faz inteiramente livre, não há sofrimento nem medo.

(O Dhammapada - O Nobre Caminho do Darma do Buda)

Todos são bem-vindos

arte: Hugo Pullen