domingo, 31 de agosto de 2014

Uma mente feliz




foto: Lou Gaioto


A verdadeira felicidade vem do coração. Vem de uma mente que se tornou mais estável, mais clara, mais presente no momento; uma mente aberta e que se preocupa com a felicidade dos outros seres. 


É uma mente que tem segurança interna, que sabe que pode lidar com o que quer que aconteça. 

É uma mente que não agarra mais as coisas com tanta força. 

É uma mente que segura as coisas de leve. Esse tipo de mente é uma mente feliz.

(Jetsunma Tenzin Palmo)




sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Fluxo

Foto: Lou Gaioto

Quando os budas olham o mundo, não vêem solidez. Eles não vêem os eus. Vêem apenas fluxo.

Isso não significa que a pessoa desperta não enxerga mais formas como o resto de nós. Eles vêem as formas - ou, por assim dizer, "a condição de forma" - mas como algo ilusório. Eles vêem que todas as coisas surgem juntas. Vêem que a aparente existência de qualquer coisa depende de tudo o que ela não é, e vêem essa dependência como nada mais que a própria mudança e o próprio movimento. 

Buda chamou esse fenômeno de surgimento dependente. O surgimento dependente consiste na fórmula: "Quando isto surge, aquilo acontece." Quando os dias ficam mais longos, as flores brotam. Quando os dias são mais curtos, as cores do outono aparecem e as folhas caem das árvores. As flores da primavera são inseparáveis dos dias longos; as cores do outono, inseparáveis dos dias menores e com menos luz. De fato, as flores da primavera são os dias mais longos; as cores do outono são os dias mais curtos. Na realidade, todos os fenômenos trabalham juntos como um todo integrado. 

O surgimento dependente não é algo vago, místico, remoto e intelectual. O buda-dharma é muito prático e realista. Basta prestar atenção redobrada em sua experiência real e você mesmo verá isso. 


(Budismo Claro e Simples - Steve Hagen)



A PAZ É ... 
Estar na 
presença de vida

Flor de Jambeiro - foto Alice Kohler



quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Foto: Laila Menezes


Denkoroku

Anais da Transmissão da Luz

Mestre Keizan Jokin



— Buda Xaquiamuni —

Caso



Xaquiamuni Buda, ao ver a estrela da manhã, se ilumina e diz: ―Eu e todos os seres da Grande Terra simultaneamente nos tornamos o Caminho.


Circunstâncias

Xaquiamuni Buda descendia da linhagem do Sol, na Índia antiga. Aos dezenove anos, ele deixou o palácio de Kapilavastu no meio da noite e cortou seus cabelos no monte Dantokuzan, renunciando ao mundo. Praticou austeridades por seis anos. Então, finalmente se sentou corretamente no Trono do Diamante. Aranhas teceram teias em suas sombrancelhas, passarinhos fizeram um ninho em sua cabeça e ervas cresceram por dentre suas pernas. Assim se sentou, tranquilo, ereto, imóvel por seis anos.

Com trinta anos, no oitavo dia do décimo segundo mês, obteve a iluminação ao ver a estrela da manhã. As palavras acima foram seu primeiro rugido de leão.

Desse dia em diante, por quarenta e nove anos, nunca mais ficou sozinho. Não passou nem mais um só momento sem pregar o Darma. Vivia com apenas um manto e uma tijela, e nada lhe faltava. Pregou o Darma incessantemente para mais de trezentas e sessenta assembléias. Finalmente transmitiu o Olho Tesouro do Darma Correto a Makakashô. Esta transmissão tem sido passada de geração a geração até o presente. Na verdade, a transmissão ocorreu através da Índia, China e Japão e é a base da prática do Darma Correto.

Toda a vida de prática de Xaquiamuni Buda é um modelo para os discípulos que ele deixou. Apesar de possuir as trinta e duas marcas especiais de grandeza e as oitenta marcas menores, ele tinha a aparência comum de um velho monge, sem ser diferente das outras 
pessoas. Desta maneira, desde que esteve no mundo, e durante as três eras de seus ensinamentos — a era do Darma Correto, a era do Darma Imitado e, presentemente, do Darma Degenerado — todos aqueles que seguem seus ensinamentos e sua conduta têm se baseado em suas ações e suas maneiras, usam aquilo que ele usava e, em cada momento — seja andando, em pé, sentando-se ou se deitando — fazem como Buda fazia, com plena atenção e sem egoísmo. Assim, nem um só momento se passou com apego ao eu. Buda após Buda e Patriarca após Patriarca têm transmitido diretamente a Lei Verdadeira, sem interrupção. Desta forma o Darma Correto nunca se extingue, como este caso claramente indica. Durante quarenta e nove anos, em mais de trezentas e sessenta ocasiões, Buda expôs o Darma para diferentes Assembléias, utilizando diferentes palavras, metáforas, estórias e 
figuras de linguagem. No entanto, todas são expressões deste mesmo princípio, ilustrado pela estória de sua iluminação.

Teishô

O ―eu mencionado por Xaquiamuni Buda em sua iluminação não é Xaquiamuni Buda, mas Xaquiamuni Buda emerge deste ―Eu com a Grande Terra e todos os seres. Quando se levanta uma grande rede, todos os buracos desta rede também são levantados. Da mesma forma, quando Xaquiamuni Buda se iluminou, a Grande Terra e todos os seres também foram iluminados. Não apenas a Grande Terra e todos os seres, mas também todos os Budas do passado, presente e futuro.

Assim, não pense que foi apenas Xaquiamuni Buda a ser iluminado. Vocês não devem ver Xaquiamuni Buda separado da Grande Terra e de todos os seres. Apesar de existirem incontáveis montanhas, rios, terras e fenômenos, eles nunca são excluídos da clara visão do 
olho de Gautama. Todos vocês também estão no olho de Buda. Este olho não é apenas o olho de Buda, também é o seu olho. A pupila do olho de Gautama se torna a carne e os ossos de todos nós. Ela se torna o corpo inteiro de cada pessoa, alto como um profundo 
precipício. Por isto, não pensem que seus olhos ou seus corpos são separados do satori de Buda. Desde os tempos antigos até o presente, não houve um olho brilhante separado das pessoas comuns. Vocês são a pupila do olho de Gautama, são Gautama em seu satori; Gautama é vocês inteiros. Neste caso, o que é que vocês podem chamar de satori de Buda?

Deixem-me perguntar, oh monges: Gautama atingiu a iluminação com todos vocês? Ou vocês atingiram a iluminação com Gautama? Se vocês disserem: ―Nós atingimos a iluminação com Gautama ou ―Gautama atingiu a iluminação conosco, esta não é a iluminação de Gautama. Este não é o princípio da iluminação.

Se vocês querem uma compreensão íntima da iluminação, vocês devem imediatamente se livrar de ―vocês e ―Gautama e rapidamente entender o ―Eu. ―Eu é a Grande Terra e todos os seres como ―e. ―E não é ―eu como o velho Gautama. 

Examinem cuidadosamente e clarifiquem este ―Eu e este ―e. Mesmo que vocês clarifiquem este ―Eu, se não clarificarem este ―e, vocês perderão o olho inteiro.


Assim sendo, ―eu e ―e não são idênticos nem diferentes. Verdadeiramente, sua pele, carne, ossos e medula são totalmente ―e. O ―senhor da casa, seu Eu Verdadeiro, é ―Eu. 

Não tem pele, carne, ossos ou medula, não tem nada a ver com os quatro elementos ou os cinco agregados. Finalmente, se você quer conhecer o ―homem imortal em sua ermida, como poderia ser algo separado deste saco de pele? Assim, não pense em todas as coisas 
como separadas dele.

Embora as estações do ano mudem e as montanhas, rios e a terra tomem diferentes formas, na verdade isto é apenas Buda levantando suas sombrancelhas e piscando seus olhos. Tudo 
isto é este corpo único, abertamente, independentemente exposto nas miríades formas. Ele ―apaga as miríades formas e ―não apaga as miríades formas (obs: alternativa- ele ―varre as miríades formas). O antigo mestre Hogan (Fa-yen) disse: ―o que você pode chamar de apagar ou não apagar?. Jizo (Ti-tsang) respondeu: ―o que você quer dizer por miríades de formas‘?.

Assim, em sua infinita e incessante prática, estudem e penetrem isto completamente. 

Clarifiquem a iluminação de Gautama e a de vocês também. Considerem este koan cuidadosamente e, sem emprestar palavras aos Budas do passado ou do presente, deixem que a resposta flua de seus corações. Por favor, me mostrem sua compreensão no próximo discurso do Darma.


Verso


Este monge das montanhas gostaria de dizer algumas humildes palavras sobre este caso. 

Vocês gostariam de ouví-las?



Um ramo esplêndido brota da velha ameixeira

Em tempo, espinhos florescem em toda parte.


(in Denkoroku - Anais da Transmissão da Luz - Mestre Keizan Jokin)

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Felicidade

foto: João Antônio



Não sigamos líderes vulgares,
Que exploram o medo da morte
E prometem o êxtase da salvação.
Se formos verdadeiramente felizes,
Eles não terão nada a oferecer.


Alguns líderes usam ameaças para conseguir adeptos. Invocam a morte para forçar o bom comportamento e arrebanhar pessoas para o paraíso.

Outros seduzem com promessas grandiosas. Se você não está satisfeito, oferecem bem-aventurança. Se você se sente inadequado, oferecem sucesso. Se você é solitário, oferecem aceitação.

Se, porém, não temermos a morte e formos felizes, o que tais líderes terão a oferecer? A espiritualidade é uma parte orgânica da vida diária, não algo administrado por um profissional. A verdadeira espiritualidade é liberação, não apenas das ilusões da realidade, mas também das ilusões da religião. Se nos libertarmos do medo da morte e conquistarmos um caminho firme de saúde e de compreensão através da vida, haverá felicidade e nenhuma necessidade de falsos líderes.


(Tao meditações diárias – Deng Ming Dao)

segunda-feira, 25 de agosto de 2014





“Quando aprendemos a ser despreocupados ficamos desapegados dos problemas e naturalmente felizes. Ao criarmos o hábito de pensar apenas o que é necessário, haverá uma grande economia de pensamentos e energia. Por outro lado, se o nosso tempo é perdido em pensamentos inúteis, o intelecto torna-se fraco e cansado. Assim como as preocupações inibem e ocultam os nossos talentos, a calma na mente inspira e desenvolve a criatividade.”

Brahma Kumaris

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Frase do Dalai Lama para recitarmos todas as manhãs


Foto: Alice Kohler 


“Toda manhã, pense quando você acorda:

Eu estou vivo, 

Eu tenho uma preciosa vida humana, 

Eu não vou desperdiçá-la. 

Eu vou usar todas as minhas energias para me desenvolver, 

Para expandir o meu coração para os outros, 

Para alcançar a iluminação para o benefício de todos os seres.

Eu não vou ficar com raiva, ou pensar mal de outros.

Vou beneficiar os outros, tanto quanto eu posso.”


“Se estamos conscientes disso ou não, todas as nossas ações começam com uma motivação. Seja indo para a geladeira para pegar um lanche ou tomar a decisão de vender tudo e construir um centro de retiro de yoga na Islândia, sempre temos algum tipo de objetivo em mente. Na maioria das vezes os nossos objetivos são bastante auto-centrados. Queremos felicidade para nós mesmos. Queremos conforto e segurança. Embora não haja nada de errado com a procura de nossa própria felicidade, também é bom expandir nossas motivações para incluir outros. Tente recitar esta aspiração simples todas as manhãs por um mês e ver como ele muda sua atitude, sua visão de mundo e seu senso geral de bem-estar."

Dalai Lama 

(Texto retirado de Buda Virtual)

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

O COMPROMISSO DO BUDISMO

Foto: Lou Gaioto



Era uma vez um grande campo, onde havia um canteiro de abóboras que estavam amadurecendo. Um dia, elas começaram a discutir. Dividiram-se em facções e fizeram muito barulho gritando umas com as outras. O monge-chefe de um templo da redondeza, ouvindo aquela algazarra, correu para ver o que estava acontecendo. Ralhando com as abóboras que estavam brigando, disse: “O que quer que estejam acontecendo, não adianta brigar! Vão todas para o Zazen!” 

O monge ensinou-as como sentar-se adequadamente no Zazen e, aos poucos, a raiva delas foi passando. Então, o monge tornou a falar: “Ponham as mãos em cima da cabeça.” As abóboras obedeceram e descobriram algo muito especial. Cada uma tinha um talo nascendo na cabeça que ligava uma às outras e todas a uma raiz comum. “Que erro cometemos!” disseram, “Estamos todas ligadas umas às outras, presas à mesma raiz e vivendo uma só vida, apesar de nossas brigas. Como somos tolas em nossa ignorância.”


Rosshi Kosho Uchiyami

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Silêncio



foto: Olga Chevereva

O estado natural da mente é silencioso, vazio, aberto... ela existe sem intenção! Se você acha que precisa de praticar o silêncio, encontrar o silêncio, manter o silêncio, então você entendeu mal. Tudo isto ... o Universo, está acontecendo em Silêncio! Não se trata de correr para encontrar algum silêncio. Trata-se de reconhecer o silêncio que não pode ser perturbado onde quer que você se encontre, sejam quais forem as circunstâncias ou ruídos.


Mooji 

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Sesshin e Cerimônia de Obon

Gassho a todos(as) praticantes do Sesshin de 15 a 17 de agosto de 2014 
Gassho Zentchu Sensei pelos ensinamentos compartilhados
Portais do Darma são ilimitados
_/\_




Fotos de Laila Menezes

































sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Transcender





Você está num planeta excelente. Ele está cheio de problemas. Mas enquanto você está nesta forma, você precisa destes problemas, para usar o seu poder de discernimento.

Este é um planeta para transcender.

A Consciência Suprema está neste corpo.
Ela está vivendo em um auto-retrato de um ser humano. E é um traje problemático. Nele existe o poder de transcender todas as dificuldades, todos os desafios. De reconhecer o Supremo neste corpo.

Mooji

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Prática

Se não houver prática, reflexão, treinamento, não haverá realização. Realização é tornar real. É a ação real, verdadeira, em que se manifestam todas as experiências do passado e todas as possibilidades de futuro.

Monja Coen


terça-feira, 12 de agosto de 2014

Onde está a confusão?

foto: Lou Gaioto


"Na verdade, ' você ', o que você realmente é, não pode estar confuso. Confusão é um estado mental. Não seria mais preciso dizer que você sente ou nota a confusão surgindo em você ? E que ambos os sentimentos de confusão e conforto são percebidos por você, incluindo seus efeitos no corpo e os pensamentos e julgamentos subsequentes acompanhando tais sentimentos ? E que estes são estados que vem e vão na presença de algum ' pano de fundo ' de inteligência impessoal ou testemunha natural?" 

Mooji

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Iluminação

“A iluminação é como a Lua refletida em gotas de orvalho. Embora sua luz seja ampla e extensa, a Lua, por inteiro, é reproduzida mesmo em um pequeno pingo de garoa. Cada reflexo manifesta a vastidão imensurável do luar no céu. Da mesma maneira como a iluminação é refletida em um indivíduo.”

(Dogen Zenji)


Foto: Lou Gaioto

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

O MUNDO


Foto: Lou Gaioto

1. Não sirva à maldade. Não viva impuramente. Não sustente falsas visões. Não contribua com o sofrimento do mundo. 

2. Eleve-se, mantenha a mente atenta. Aja virtuosamente. O virtuoso vive feliz na presente vida, e também na seguinte.

3. Seja virtuoso. Recuse o descaminho. O virtuoso vive feliz na presente vida, e também na seguinte.

4. Perceba o mundo como uma bolha ou como uma miragem. A morte perde seu poder diante daquele que vê o mundo com tal compreensão.

5. Venha, olhe para este mundo como se ele fosse uma carruagem real, pintada e ornamentada. Nela os tolos embarcam, enquanto os sábios a deixam passar ao largo.

6. Aquele que abandona a distração para concentrar-se na mente atenta, é como a lua que se libertou da nuvem. Ele passa a iluminar o mundo.

7. Todo aquele que suplanta as suas más ações com boas ações, ilumina o mundo como a lua liberta de uma nuvem fortuita.

8. O mundo acha-se envolto na escuridão. Poucos são os que têm olhos de ver. Como pássaros libertos do cativeiro, raros são os que voam em direção à luz do céu.

9. Os cisnes tomam o caminho do sol por causa dos seus poderes extraordinários. Os sábios fazem o mesmo. Tendo vencido o eu, eles atingem o nirvana.

10. Não há maldade que não seja feita por quem se afasta dos preceitos, fala com falsidade e despreza a existência de uma outra vida.

11. Os avarentos desconhecem a paz dos deuses. Os tolos não prezam a generosidade. Mas os sábios se regozijam na caridade e por intermédio dela serão felizes após o passamento. 

12. Melhor do que governar sozinho o mundo inteiro, melhor do que ir para o céu, melhor do que reinar sobre todos os mundo, é a realização  daquele que "entra na corrente" (*) do verdadeiro caminho.


(O Dhammapada - O Nobre Caminho do Darma de Buda) Ed. Bodigaya

(*) Aqui o termo empregado é Sotapatti, significando o primeiro estágio daquele que entrou no caminho que conduz ao nirvana. "Entrar na Corrente", ou seja, conseguir achar o caminho da luz em meio à escuridão, naturalmente, possui um elevado valor intrínseco.

domingo, 3 de agosto de 2014

Tudo muda



Foto: João Antônio - Série Meu Jardim




Quando lhe pediram para resumir os ensinamentos de Buda em uma frase, Suzuki Roshi simplesmente disse: “Tudo muda.”





Todo mundo sabe disso, pelo menos intelectualmente, que toda a criação está em um estado de revolução sem fim. O filósofo grego Heráclito disse a famosa frase: “Nenhum mesmo homem pode percorrer o mesmo rio duas vezes, já que tanto o homem quanto o rio mudaram desde então.”


Impermanência é a própria natureza da vida.


Na verdade, a mudança é apenas outra palavra para vida-“viver” significa “mudar.” Mas poucas pessoas passam pela vida verdadeiramente consciente deste fato. Nós “entendemos” isso, mas esse entendimento (ou ”conhecimento”) falha em influir em nosso comportamento. Nós simplesmente ignoramos a forma como as coisas realmente são. Assim, o ponto desta discussão não é explicar a impermanência para você, mas para aponta-la; para acordá-lo para a verdade da mudança.


Alan Watts costumava comparar a vida à música. O ponto/propósito da música é música, ele diria. As pessoas gostam de ouvir música pelo ritmo, o fluxo da melodia. Ninguém escuta música para ouvi-la terminar. Se fosse assim, então, como Watts apontou, suas músicas favoritas seriam as que terminaram abruptamente com um único barulho de ruído. A vida é da mesma forma.


O ponto e propósito da vida é a própria vida, participar da melodia. Melodias são córregos; eles estão a fluir. Você não pode moldá-los ou prende-los. Quando você faz isso, não há fluxo. Isso é a morte.


A única maneira de participar da melodia é através da consciência desperta. Uma simples consciência desperta é fluida. Uma mente simples perde seu sentido de individuo/self/ego na música, ao passo que uma mente egocêntrica continua tentando fazer uma pausa na música. Nós forçamos muito a barra em ouvir o que queremos ouvir, em vez de mover-se com a música, viver. Estamos acostumados a nos recuar, como um espectador, um ouvinte tentando pegar o ritmo. Queremos possuir e segurar esse ritmo, essa batida, e se identificar com ele.


Não é o suficiente para nós apreciar a música. Nós temos que saber a letra. Assim, pausamos a música toda hora e voltamos, a fim de guarda-la na memória e te-la como ”nossa”.


O ego cria um sentido de identidade ou significado a partir de suas interações com “outro”.


Essas interações produzem um ”recibo”, que o ego tenta coletar e preservar. Ao invés de apreciar o show em primeira mão, o ego tira fotos e filma o show, para que ele possa falar sobre isso e compartilhar as fotos mais tarde. O rio da vida está sempre fluindo, mas para o ego, cuja existência depende de congelar esse fluxo de mudanças, a flutuação é aterrorizante, e é por isso que chamamos isso de impermanência.


Do ponto de vista pessimista do ego, flutuação e mudanças representam uma ameaça à sua estabilidade, mas no estado sem referencial de simples consciencia desperta, o espaço que permite o fluxo ou a mudança é o útero de vitalidade. A vida, a adaptação emerge deste espaço. O ego procura ignorar este espaço enchendo-o de credenciais e solicitações de depoimentos e testemunhos.


O ego é um grande colecionador.


Ele mantém todos os recibos, comprovantes, e cada memória que lhe dê razão e existência. Em uma mente egocêntrica não há espaço, não há espaço para respirar. Mas no fundo o ego sabe que a coisa toda pode ruir a qualquer momento. Ele lembra-se do espaço, a lacuna silenciosa entre cada nota que permite que a música flua. Essa memória assombra o ego. Produz paranóia e insegurança.


Esta insegurança é o benfeitor que justifica a obsessão do ego com a coleta desses ”recibos”. Uma mente egocêntrica é co-dependente, e essa co-dependência faz de tudo para evitar o espaço, flutuação. O ego é dependente de relacionamento ou de entretenimento, o que exige a separação.


Assim, o ego tem que pensar em si mesmo como uma entidade distinta. Tem que separar-se da vida. Defender esta estratégia segregacionista é necessária para o ego. A separação é o fundamento sobre o qual o império do ego é construído. Como resultado, é cronicamente insatisfeito ou sem vida.


Além do descontentamento e da insatisfação crônica, considere por um momento os problemas que alguém tem se considera a si mesmo como uma ilha ou uma entidade sólida em um mundo fluido.


As coisas mudam. No entanto, o rio não é a única coisa que muda. Segundo Heráclito, o mesmo acontece com o homem. Mas o ego se vê como imutável. Quando estamos no rio da vida com os pés plantados, como se nós fossemos uma ilha, a vida começa a se sentir como uma parede enorme de água caindo em cima de nós.


Tomemos por exemplo, a transição entre ser solteiro e em um relacionamento. Quando você está solteiro você desenvolve um estilo de vida que isso não tem que levar em consideração outra pessoa. Você pode acordar de manhã beber o seu café, ler o jornal, tomar café da manhã, ir trabalhar, ir para a academia, sair com os amigos e assistir o que quiser na TV. Mas quando você traz uma outra pessoa na mistura,você não pode continuar a operar da mesma forma. A situação mudou, por isso, seu modo de operar anterior esta desatualizado.


Quando “eu” é uma entidade fixa ou um hábito de pensamento, essa transição é difícil. Se você se agarrar esta imagem desatualizada, o relacionamento vai começar a sentir-se claustrofóbico. Haverá um confronto após o outro. A intensidade vai continuar a aumentar ao longo do tempo, até que tudo, sua auto-imagem e o relacionamento(o homem e o rio)-acabam.


O que pensamos sobre nós mesmos é desafiado pela mudança. Muitas pessoas dizem: “Eu não deveria ter que desistir de quem eu sou, a fim de estar em um relacionamento.” Eu digo, se você não desistir de quem você é, então você não está em um relacionamento.


Na verdade, se você não tem que desistir de quem você é cada momento de cada dia, então você não está vivo. Estar vivo é estar em constante estado de revolução. Situações de mudança devem promover mudanças no nosso comportamento. Essa é a sanidade; permitir que novas informações para atualizar o meu ponto de vista. ”Meu ponto de vista”, (o homem, no exemplo de Heráclito), deve permanecer aberto ou fluido. “Tudo muda.”, Que é o ponto básico, de acordo com Shunryu Suzuki. Tudo. A economia, a política, o tempo, as relações, as nossas crenças, a nossa própria noção de identidade – estão em estado de flutuação. Quando estamos abertos a mudanças, a transição é relativamente suave. Nós estamos indo com o fluxo. Por outro lado, quando se tenta salvar todos os nossos ”recibos” , é ai que nos afogamos.


Não podemos nadar com as mãos cheias.


Uma mente aberta é uma mente sã. Uma mente aberta não é uma mente que dá a devida atenção a qualquer idéia, independentemente de quão ridícula ela possa soar.


Uma mente aberta é uma porta de vaivém. É uma mente que não resiste à mudança. Uma mente aberta permite que o pensamento seja um reflexo da mudança. Deste ponto de vista, o pensamento é sempre fresco, porque a vida está sempre mudando. Este é o pensamento original, imaginação. Com consciência desperta, o homem e o rio fluem um no outro.


Temos que aceitar o fato de que não podemos querer sugar a felicidade a força do mundo simplesmente pegando a vida pelo pescoço e forçando-a ser do jeito que queremos que seja. Temos que ver que a vida é mudança, mudança é a vida; que eles são um na mesma coisa.


Tentar organizar fenômenos impermanentes em categorias permanentes do pensamento é como tentar arrebanhar gatos. Além disso, não estamos de alguma forma fora dessa mudança, nós somos a Vida. Nós somos mudança. Confusão e descontentamento surgem a partir da crença equivocada de que somos um substantivo, um nome. O contentamento emerge quando paramos de nadar contra a corrente e se estabelece na realização do fato de que somos uma corrente no fluxo. E essa corrente não é diferente do fluxo. É o movimento do fluxo.


Nós não somos um substantivo ou nome co-dependente que está no banco observando o fluxo de vida, mas sim um verbo que emerge do fluxo da vida.


Texto traduzido do artigo de Benjamin Riggs ”Everything the Buddha Ever Taught in 2 Words.” no site Elephantjournal - texto retirado do site - www.budavirtual.com.br -