segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Onde quer que você esteja, está a iluminação

Mesmo em nossa prática imperfeita, a iluminação está ali. Apenas não sabemos disso. Então, a questão está em encontrar o verdadeiro significado da prática antes de alcançarmos a iluminação. Onde quer que você esteja, está a iluminação. Se você se erguer exatamente onde está, isso será a iluminação.
(Nem sempre é assim - Shunryu Suzuki - Ed. Religare)

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Causas e condições



Nós criamos causas e condições. Somos os produtores, os atores, os diretores, os roteiristas desse grande espetáculo que é a nossa vida, a vida do planeta, do universo, de tudo o que existe.

Quando cada um de nós atua no melhor de seu potencial – não de qualquer jeito, mas fazendo o que é correto, fazendo o seu melhor; não para dizer que somos o bom, mas o melhor para que todos possam se manifestar no melhor de seu potencial –, contribuímos para uma vida de harmonia, beleza, ternura, amor. O importante não é o que ganhamos, mas com o que podemos contribuir. Isso é a transformação.
(Monja Coen)

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Não existe nem falta, nem felicidade, nem perda, nem ganho.
Na paz dessa perfeição absoluta, não temos de procurar coisa alguma.

(O Canto do Satori Imediato - Yoka Daishi - Ed. Pensamento)

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Se chamarmos a Paz ela virá. Através da própria Paz.
Se chamarmos a Compaixão ela virá. Através da própria Compaixão.
Se chamarmos a Verdade ela se manifestará. Através da própria Verdade.
 

(Monja Coen)

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

O que mais é preciso dizer?
Os infantis trabalham em seu próprio benefício, os budas trabalham em benefício dos outros.
Olhe só a diferença entre os dois!
Se eu não trocar minha felicidade pelo sofrimentos dos outros, nunca atingirei o estado búdico.
E mesmo no samsara jamais terei verdadeira alegria.
(Shantideva, A Guide to the Bodhisattvass way of life - Boodhicaryavatara - traduzido por Stephen Batchelor)

terça-feira, 25 de outubro de 2011

O zazen não se limita a sentar-se na postura. Andar, ficar de pé, fazer kin-hin, também fazem parte do zazen. Falar, calar-se... também refletem o espírito do Zen. Todos os comportamentos e as ações do nosso corpo devem ser calmos e pacíficos, em harmonia com o sistema cósmico. Mas isso não significa, como certas pessoas pensam, que quando se dorme, nosso sonho é Zen, quando se come, a comida é Zen, quando se faz amor, o amor é Zen!...

Isso é um erro. De fato, o Zen significa: concentrar-se sobre o seu comportamento na vida cotidiana, de modo a agir da maneira mais adequada através de cada ato da existência.

(Shodoka, o canto do Satori imeditato - Yoka Daishi. Tradução e comentários do Mestre Taisen Deshimaru Roshi, Ed. Pensamento, p. 109)

terça-feira, 18 de outubro de 2011

ZEN DA PAZ
"O caminho de Budha é a mente a procura da iluminação. Não é a mente vagueando com sono."


 22 de outubro de 2011 - Sábado
 7h00 às 12h00
CCB - Centro Cultural Brasília - 601 Norte, ao lado do Serpro

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Hoje eu sei

Hoje eu sei que a compaixão é capaz de transformar o mundo e transformar o ser.
 
Hoje eu sei que a compaixão pode ser desenvolvida, cultivada, que as áreas do cérebro responsáveis pela compaixão podem ser estimuladas.
 
Hoje eu sei que é possível "musculação de neurônios" através da meditação e do pensamento amoroso, terno, inclusivo, compreensivo, sábio.
 
Hoje eu sei que Buda se manifesta em cada ser que se entrega à bondade e ao Caminho do Bem, que é o Caminho Iluminado.
 
Hoje eu sei que a Verdade é o Caminho.  A Verdade com "V" maiúsculo, onde tudo está incluso - até mesmo as mentiras.
 
Hoje eu sei que não sei, que não há nem mesmo um "eu" que sabe e não sabe.
 
Hoje eu sei que intersomos, interconectados com tudo que existe.  Somos um só corpo e uma só vida. Estamos em rede. Na rede de Indra, feita de raios luminosos e em cada intersecção uma jóia recebendo e emitindo raios em todas as direções.
 
Hoje eu sei que somos co responsáveis pela realidade em que vivemos, pelo mundo em que estamos e que não adianta reclamar, é preciso agir para transformar.
 
Hoje eu sei que a juventude passa, os amores passam, a velhice passa, os desamores passam.  Tudo é transitório e passageiro. O que se une inevitavelmente se separa. E assim é.
 
Hoje eu sei que a pessoa mais forte é aquela que se bende primeiro - assim como o bambu - flexível.
 
Hoje eu sei que a água é capaz de se moldar ao recipiente que a contém e que o gelo é duro e pode ferir.  Então faço dos ensinamentos sagrados o sol que derrete o gelo e nos liberta de nossa própria frieza.
 
Hoje eu sei que é preciso sentir, que a indignação é uma alavanca para as grandes transformações e que as grandes transformações são feitas de pequenos gestos simples no dia a dia.
 
Hoje eu sei que palavras amorosas e ternas afetam as moléculas de água e que somos mais de 75% água. Então eu cuido do que falo, do que penso e como ajo.
 
Hoje eu sei que a mudança depende de mim, de cada um de nós.  E que só há um caminho: ação amorosa e não violenta para resolver conflitos e atritos.
 
Hoje eu sei que a vida vale a pena ser vivida em sua plenitude deste instante eterno.
 
E tudo que temos é este instante.  Aqui e agora.
 
Monja Coen

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Monja Coen Sensei em Brasília, 24-25 de setembro de 2011




Obrigada, Coen Sensei
E que os méritos de nossa prática se estendam a todos os seres e que possamos todos e todas nos tornarmos o caminho iluminado.

gasshô

Comunidade Zen Budista Soto Shu Zendo Brasília
  

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Tudo muda, tudo passa e se transforma. A vida é a não-fixação;  toda lembrança imobilizada e todo desejo obsessivo são as células cancerosas da vida. Atrofiam-na, opõem-se à circulação da corrente da energia cósmica.

Se vos criticarem, atacarem ou baterem, não vos encolerizeis. Se as pessoas vos respeitarem, admirarem, não fiqueis envaidecidos nem contentes demais.

Por mais que me respeitem e admirem, eu me conheço. Não sou tão bom nem tão mau. Não deixo que as críticas ou a admiração dos outros influam em mim. Meu espírito não se move.


(O anel do caminho - palavras de um mestre zen - Taisen Deshimaru - Ed. Pensamento)

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Dogen sama diz: “Se quiserem libertar-se do sofrimento, devem manter a satisfação em suas mentes”.
A satisfação é um estado mental, um estado de completude, diferente disso é um estado de falta, está sempre faltando alguma coisa. É um vazio.
Por outro lado o budismo vai falar que é muito importante este vazio, que temos de nos manter vazios, onde tudo é possível acontecer; não ter idéias preconcebidas, não manter a mente rígida, mas mantê-la flexível.
(Monja Coen)

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

FUKANZAZENGI ‐ Regras universais do Zazen (Manual de meditação do mestre Eihei Dogen ‐ Japão, 1200 ‐ 1253 dc)

Agora, quando procuramos a fonte do Caminho, descobrimos que é universal e absoluta. Torna‐se desnecessário distinguir entre prática e iluminação. O ensinamento supremo é livre, então por que deveríamos estudar os meios de atingi‐lo? Sem dúvida, o Caminho está bem longe da delusão. Por que, então, preocupar‐se com os meios de eliminá‐la?
O Caminho está completamente presente onde você está, então qual a necessidade de prática e de iluminação? Contudo, se no início houver a menor diferença entre você e o Caminho, o resultado será uma separação maior do que aquela entre o céu e a terra.

Se surgir o menor pensamento dualista, você perderá sua mente‐Buda. Por exemplo, algumas pessoas se orgulham de sua compreensão, e acreditam que estão ricamente dotadas com a sabedoria de Buda. Crêem que já alcançaram o Caminho, iluminaram suas mentes e conquistaram o poder de tocar os céus. Imaginam que estão andando no reino da iluminação. Mas o fato é que quase perderam o Caminho absoluto, que está além da própria iluminação.

Ainda se vêem as marcas daquele que por seis anos sentou‐se erecto e se ouvem os ecos do Monte Shaolim onde por nove anos sentou‐se de face para a parede aquele que transmitiu o selo da mente. Já que estes antigos sábios eram tão diligentes, como podem os praticantes dos dias atuais deixar de praticar zazen? Devemos parar de correr atrás de palavras e de letras e aprendermos a nos retirar e refletir sobre nós mesmos. Quando assim fazemos, nosso corpo e mente são naturalmente transcendidos, e nossa natureza‐Buda original se manifesta. Se almejarmos realizar a sabedoria de Buda, devemos começar a praticar imediatamente.

Para fazer zazen, é desejável um local tranqüilo. Devemos ser moderados no comer e no beber, abandonando todo relacionamento deludido. Deixando tudo de lado, não pensemos nem no bem, nem no mal, nem no certo, nem no errado. Assim, tendo cessado a agitação da mente, abandonamos até mesmo a idéia de nos tornar Buda. Isto é verdadeiro não só para o zazen, mas para todas as nossas ações cotidianas, sem apego ao sentar ou ao deitar.

Geralmente, colocamos um acolchoado quadrado no chão, onde vamos sentar, e sobre ele uma almofada redonda. Podemos sentar na posição de lótus ou na de meio lótus. Na primeira, colocamos o pé direito sobre a coxa esquerda, e em seguida o pé esquerdo sobre a coxa direita. Na segunda, apenas colocamos o pé esquerdo sobre a coxa direita. As roupas devem ser folgadas, mas bem arrumadas. Em seguida, colocamos o dorso da mão direita sobre o pé esquerdo e o dorso da mão esquerda sobre a palma direita, com as pontas dos polegares se tocando levemente. Devemos nos sentar perfeitamente eretos, nem inclinados à direita, nem à esquerda, nem para frente, nem para trás. As orelhas devem estar alinhadas com os ombros e o nariz alinhado com o umbigo. A ponta da língua deve ser colocada no palato, os lábios e dentes devem ficar fechados. Mantendo os olhos entreabertos, respiramos suavemente pelas narinas. Finalmente, tendo regulado o corpo e a mente fazemos uma respiração profunda, movendo nosso corpo para a esquerda e para a direita e então, devemos ficar imóveis, sentados tão firmes quanto uma rocha. Existe o pensar, existe o não pensar e existe o inconcebível. Esta é a verdadeira base do zazen.
Zazen não é meditação passo a passo. É o portal do Darma da agradável tranqüilidade, é a prática e a realização da Iluminação, é tornar‐se o "koan". A verdade aparece, não mais havendo delusão. Se compreendermos isto, estaremos completamente livres, como um dragão na água, ou um tigre recostado na montanha. O Darma Correto surge naturalmente e ficamos completamente livres de todo
cansaço e confusão. Ao terminarmos o zazen, devemos mover o corpo devagar e nos levantar com calma. Não devemos nos mover bruscamente.

Pela virtude do zazen, é possível transcender a diferença entre o comum e o sagrado e obter a capacidade de morrer sentado ou de pé. Além do mais, é impossível para nossa mente discriminatória compreender como os Budas e Ancestrais do Darma comunicaram a essência do Zen a seus discípulos, com o levantar de um dedo, com uma vara, jogando uma agulha ou batendo com o martelo de madeira; ou como eles transmitiram a iluminação com o levantar de um hossu, de um punho, de um bastão ou com um grito.
Tampouco, este assunto pode ser compreendido através de poderes sobrenaturais ou de uma visão dualista de prática e iluminação. Zazen é a prática além dos mundos subjetivos e objetivos, além do pensamento discriminatório. Assim, nenhuma discriminação deverá ser feita entre o inteligente e o não‐inteligente. Praticar o Caminho com todo o respeito é, em si mesmo, iluminação. Não existe separação entre a prática e a iluminação, ou entre o zazen e a vida cotidiana.

Os Budas e Ancestrais do Darma, tanto neste país, quanto na Índia e na China, todos preservaram cuidadosamente a mente‐Buda e incentivaram assiduamente o treinamento Zen. Devemos, pois, nos dedicar exclusivamente, e sermos completamente absorvidos pela prática do zazen. Apesar da divulgação de inúmeras maneiras de se compreender o Budismo, devemos praticar somente o zazen. Não há motivo para abandonarmos nosso assento de meditação e fazermos viagens inúteis a outros países. Se nosso primeiro passo for errado, inevitavelmente tropeçaremos.
Já tivemos a boa fortuna de nascer com um corpo precioso, então, não devemos desperdiçar nosso tempo à toa. Agora que sabemos qual é a coisa mais importante no Budismo, como podemos ficar satisfeitos com o mundo transitório? Nossos corpos são como o orvalho sobre a relva, e nossas vidas como o clarão de um raio, que desaparece num instante.

Sinceros praticantes Zen, não se espantem com o Verdadeiro Dragão, nem gastem muito tempo inutilmente apalpando apenas uma pequena parte do elefante. Dediquem seus esforços ao caminho que leva diretamente à natureza‐Buda. Respeitem aqueles que alcançaram o conhecimento completo, que estão sem intenção de intenção.

Tornem‐se um com a sabedoria dos Budas e assim, sucessores legítimos da iluminação dos Ancestrais. Praticando desta maneira, certamente serão capazes de compreender tudo isto. Então, a casa do tesouro naturalmente se abrirá e vocês poderão se servir à vontade.
(retirado do site de monja Coen Sensei - textos tradicionais - http://www.monjacoen.com.br/)

segunda-feira, 29 de agosto de 2011


Devemos nos libertar de apegos, de ganâncias, de querer sucesso, de querer aprovação, de querer reconhecimento.
Faça o bem, seja correto, se reconhecerem ou não, não tem a menor importância.
Monja Coen

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O Esforço no Zen

Quando caminhar, parar, sentar-se, deitar-se, falar, estiver em silêncio, mover-se, estiver quieto
Em todos os momentos, em todos os lugares,
Sem interrupção - o que é isso?
Um momento contém infinitos kalpas.

A qualquer hora, em qualquer lugar, você não deve esquecer a sua verdadeira direção. Por que você come todos os dias? Quando você nasce, de onde vem? Quando morre, para onde vai? "Vir de mãos vazias, ir de mãos vazias - isso é humano." Todos vêm para o mundo sem trazer coisa alguma. Todos partem daqui sem nada levar também. Não podemos carregar nada conosco. No entanto, entre esses dois momentos, todos desejam coisas, todos perseguem coisas, e todos ficam muito apegados às coisas. Mas, quando você nasce, tudo já está pronto. Seu carma nessa vida já foi determinado pelo carma que você cultivou em suas vidas anteriores. Você não pode fazer nada.

Todavia, há uma maneira de modificar isso. Se você puder controlar a sua mente de momento a momento, então será possível mudar a sua vida e evitar que ela seja um produto automático do seu carma. Assim, você deveria direcionar a sua energia para o modo como mantém sua mente, exatamente agora: quando anda, pára, senta, deita, conversa, está em silêncio ou vive em completa quietude - em qualquer lugar , em qualquer momento - como você mantém a sua mente? As condições e situações exteriores estão constantemente carregando a sua mente para aqui e para ali, para cá e para acolá. É possível encontrar a sua verdadeira natureza em meio a todo este ir e vir, em meio as suas atividades diárias. Isto se chama manter uma mente que não se move.
(A Bússola do Zen - a essência viva da espiritualidade para o mundo atual, Mestre Zen Seung Sahn, Ed. Bodigaya, pg.323)

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

MENTE COMUM, MENTE DE BUDA

Buda, em seu sentido verdadeiro, não é diferente da mente comum.
E mente comum, cotidiana, não é algo à parte do que é sagrado. Essa é uma compreensão completa do nosso eu. Ao praticarmos o zazen com esse entendimento, esse é o zazen verdadeiro.

(Nem sempre é assim - Praticando o verdadeiro espírito do zen, Shunryu Suzuki - Ed. Religare)

segunda-feira, 8 de agosto de 2011


ZEN DA PAZ
Prática em benefício de todos os seres
 
 
Dia 13 de agosto de 2011 - Sábado
Das 7h00 às 11h15
Centro Cultural Brasília - 601 Norte - ao lado do Serpro  - sala de meditação/oratório
Comunidade Zen Budista - Zendo Brasília

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Eihei Dogen Daiosho – Koso Joyo Daishi
"O grande Caminho dos Budas Ancestrais é necessariamente a suprema prática contínua, que circula incessantemente, sem nenhuma interrupção.
Resolução, prática, bodai (iluminação) e nirvana não possuem intervalo entre si – esta é a circulação incessante da prática cotínua." (Shobogenzo Gyoji)

Nossa resolução, prática, iluminação (bodai) e obtenção de Nirvana são o desenvolvimento próprio do grande Caminho dos Budas Ancestrais.  Aqui a incessante circulação da prática contínua se realiza.  Assim sendo o ponto de vista de Mestre Dogen Zenji se opõe ao da heresia de Senika, que mantinha a idéia de uma inteligência espiritual brilhante existindo eternamente.  Dogen Zenji inocentemente proclama "o grande Caminho é o corpo aqui e agora".

O Darma é amplamente presente em cada pessoa, mas a menos que pratique não se torna manifesta, a menos que haja realização, não é obtido.

O que precisa ser compreendido é que precisamos praticar na realização.
Essa unidade de prática e realização e da incessante circulação da prática contínua é o ponto essencial dos ensinamentos de Mestre Dogen.
(trecho traduzido e extraído pela Monja Coen em 10 de abril de 2011, do livro A Study of Dogen, His Philosophy and Religion, de Masao Abe, editado por Steven Heine, publicado por State University of New York Press, Albany, 1992)

segunda-feira, 25 de julho de 2011

SER ZEN

Ser zen não é ficar numa boa o tempo todo, de papo para o ar, achando tudo lindo sem fazer nada.

Ser zen é ser ativo. É estar forte e decidido. É caminhar com leveza, mas com certeza. É auxiliar a quem precisa, no que precisa e não no que se idealiza.

Ser zen é ser simples. Da simplicidade dos santos e dos sábios. Que não precisam de nada. Nada mais que o necessário. Para o encontro, a comida, a cama, a diversão, o trabalho.

Ser zen é fluir com o fluir da vida. Sem drama, sem complicação. Na hora de comer come comendo, sem ver televisão, sem falar desnecessário. Sente o sabor do alimento, a textura, o condimento. Sente a ternura (ou não) da mão que plantou e colheu, da terra que recebeu e alimentou, do sol que deu energia, da água que molhou, de todos os elementos que tornam possível um pequeno prato de comida à nossa frente. Sente gratidão, não desperdiça.

Come com alegria. Para satisfazer a fome de todos os famintos. Bebe para satisfazer a sede de todos os sedentos. Agradecendo e se lembrando de onde vem e para onde vai.

A chuva, o sol, o vento.

O guarda, o policial, o bandido, o açougueiro, o juiz, a feiticeira, o padre, a arrumadeira, o bancário, o servente e o garçom, a médica e o doutor, o enfermeiro e o doente, a doença e a saúde, a vida e a morte, a imensidão e o nada, o vazio e o cheio, o tudo e cada parte.
Ser zen é ser livre e saber os seus limites.
Ser zen é servir, é cuidar, é respeitar, compartilhar.
Ser zen é hospitalidade, é ternura, é acolhida.
Ser zen é o kyosaku, bastão de madeira sábia, que acorda sem ferir, que lembra deste momento, dos pés no chão como indígenas, sentindo a Terra-Mãe sustentando nossos sonhos, nossas fantasias, nossas dores, nossas alegrias.

Ser zen é morrer.
Morrer para dualidade, para o falso, a mentira, a iniquidade.
Ser zen é ser simplesmente quem somos e nada mais.

(Sempre Zen - aprender, ensinar e ser, Monja Coen, Publifolha, 2006)

terça-feira, 19 de julho de 2011

A oração como parte de uma prática espiritual

Mesmo que você não reze com muita frequência e que a prática espiritual não ocupe parte muito grande de sua vida, você às vezes reza para ter saúde, prosperidade e bons relacionamentos. Mas para aquelas pessoas que se tornam monges ou monjas e para aquelas outras com intensa prática espiritual, há outro objeto da oração. No canto budista "O discípulo toca a terra com respeito", o objetivo é colocado assim:
 Ir além do ciclo do nascimento e da morte,
superar o não-nascido e o imorredouro.

Evidentemente, as pessoas que devotaram sua vida à prática espiritual também rezam para ter saúde, sucesso e harmonia, mas só estas coisas não bastam. Quando você aprofunda sua prática espiritual, começa a questionar. Você quer saber com toda clareza: Donde eu vim? Por que estou aqui? Para onde irei? Após a morte, continuarei existindo ou não? Há alguma relação entre mim e Buda, entre mim e Deus? Qual é a intenção primeira de eu estar aqui? Estas são as  interrogações, as orações, de um devoto praticante espiritual.

Se estivermos praticando e só rezarmos por saúde, sucesso e bons relacionamentos, ainda não somos um praticante autêntico. Um praticante autêntico tem de rezar em nível mais profundo. Temos que praticar de tal maneira que em nossa vida cotidiana sejamos capazes de intuir a natureza interdependente de todos os seres.

(A energia da oração - Thich Nhât Hanh - Ed. Vozes)

sábado, 9 de julho de 2011

Retornando ao silêncio

O zazen é a porta certa para entrar no dharma-de-Buda. Mas o dharma-de-Buda é, na verdade, a vida humana. Assim, esse zazen não é uma prática exclusiva; ele é a prática mais fundamental para todos os seres sencientes. Por exemplo, quando você realmente quer saber quem você é, qual é o significado real da vida humana, do sofrimento humano, do prazer humano, do ensinamento de Buda, muito naturalmente você volta ao silêncio. Mesmo que você não queira, você retorna a uma região do não-som. Ela não pode ser explicada mas, nesse silêncio, você pode compreender, ainda que apenas de um modo obscuro, a essência daquilo que você quer saber. Seja qual for o tipo de pergunta que você fizer ou qualquer que seja seu pensamento, você precisa finalmente retornar ao silêncio. Esse silêncio é vasto; você não sabe o que ele é.

Seja qual for o assunto que você queira estudar, você não pode estudá-lo a partir de seu próprio ponto de vista superficial. Você chegará, afinal, a uma vastidão semelhante à água da fonte, que brota continuamente da terra. Quanto você estudar seriamente alguma coisa, mais compreenderá que todas as coisas são infinitas.

De onde provém essa água da fonte? Não do território pequeno, particular de alguém. A água que nasce em seu território é limitada, não é profunda. A natureza original de sua vida, ou de seu estudo, ou de sua personalidade ou caráter é a água da fonte que brota da vastidão da terra. É nesse lugar que você precisa se sentar. 

(Retornando ao Silêncio - A prática Zen na Vida Diária, Dainin Katagiri, Ed. Pensamento, pg. 59)

terça-feira, 28 de junho de 2011

PALAVRAS DO DHARMA

As palavras permitem inúmeras possibilidades.
Muitas vezes nós não prestamos atenção às palavras. Nós as usamos, sem refletirmos sobre seu significado.
Proponho a vocês que prestem atenção, um pouquinho que seja, nas palavras que circulam sua mente, sua boca, seus ouvidos, sua vida.
Palavras para se comunicar externa e internamente.
Ouça seu diálogo interior, ou a multidão de vozes em você.
Ouça como você fala em seu processo mental: você fala em que línguas? As palavras que você usa, as instruções, as idéias, os conceitos, de onde vieram? Para onde vão? São palavras de ternura ou de rancor?  De compreensão ou de reclamação? Você resmunga muito?
Vamos observar essas palavras todas que nos cercam e vamos escolher palavras boas.
Ao mudar as palavras, mudamos as frases, mudamos os pensamentos, mudamos a nós e mudamos a vida dos céus, das terras, dos mares, das águas, das matas, dos ventos, dos ares.
Monja Coen
Extraído de “Palestra do Dharma” na Comunidade Zen Budista – 22/02/2011

terça-feira, 21 de junho de 2011

Eu sei que há um coração interior, e, se meu coração interior não funcionar, eu morrerei em seguida. Desta forma, tento fazer tudo que eu posso para proteger e preservar meu coração. Mas quando eu olho para o sol vermelho, e inspiro e expiro, vejo que o sol é um outro coração meu. Se o sol parar de funcionar, eu morrerei em seguida. É por esta razão que considero o sol como meu coração. Quando você pratica desta forma, você se vê como não limitado pela pele de seu corpo. Vê que o ambiente é você. Cuidar do ambiente é cuidar de você mesmo.

(Thich Nhat Hanh - Corpo e Mente em Harmonia - andando rumo à iluminação - pg. 111 - Ed. Vozes)

sexta-feira, 10 de junho de 2011

DO DRAMA AO NÃO-DRAMA

Na prática zen nós saímos de uma vida dramática, espécie  de novela das 20h, para uma vida não-dramática. A despeito do que possamos dizer, todos nós gostamos muito de nossos dramas pessoais. A razão para tanto? Seja qual for o nosso drama particular, sempre estamos no papel principal que é onde nós queremos estar. E, pela prática, nós gradualmente nos deslocamos para longe dessa preocupação com nós mesmos. Assim, sair de uma vida dramática para uma vida não-dramática, embora possa parecer sem nenhum atrativo, é do que trata a prática zen.

Examinemos isso de perto.

Quando começamos a praticar, é bom começar respirando algumas vezes bem fundo, enchendo a cavidade abdominal, o meio do peito e embaixo dos ombros, até estarmos repletos de ar; depois, soltamos o ar, interrompendo a expiração um instante. Faça isso três ou quatro vezes. Em certo sentido, é artificial, mas ajuda a criar um certo equilíbrio e forma uma base conveniente para se sentar e praticar. Depois de termos feito isso, o passo seguinte é esquecer exatamente isso, esquecer de controlar a respiração. Não o esqueceremos por completo, é claro, mas é inútil controlar a respiração. Em vez disso, apenas vivencie esse processo, o que é muito diferente. Não estamos tentanto fazer uma respiração lenta, longa e regular, como muitos livros sugerem. Em lugar disso, o que queremos é deixar que o ar seja o comandante, para que a respiração esteja nos respirando. Se a respiração for superficial, que seja assim. Quando nos tornamos a nossa respiração, por sua própria pulsação a respiração se torna mais lenta. A respiração permanece superficial porque queremos pensar em vez de vivenciar a nossa vida. Quando fazemos isso, tudo se torna mais superficial e controlado. A palavra retesado é bastante sugestiva: descreve como subimos para a cabeça, a garganta, os ombros e lá nos tensionamos; estamos com muito medo e nossa respiração também fica alta. Uma respiração que consegue ser abdominal, como tende a ocorrer após anos de prática, é aquela que vem quando a mente perdeu as esperanças. Tudo aquilo pelo que esperamos é do que lentamente aprendemos a desistir e, então, a respiração desce. Não é algo que precisamos tentar fazer. A prática consiste em vivenciarmos a respiração como ela é.

(Charlotte Joko Beck - Nada de Especial  - Vivendo Zen, Ed. Saraiva 1ª Ed. 1994)

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Estudar a si mesmo

"Não se trata de ter um profundo sentimento acerca do budismo; simplesmente fazemos o que deve ser feito, tal como jantar e ir para a cama. Budismo é isso."

O propósito do estudo do budismo não é estudar budismo, mas estudar a nós mesmos. É impossível estudar a nós mesmos sem algum ensinamento. Para saber o que é a água, você precisa da ciência, e o cientista, de um laboratório. No laboratório há vários meios de estudar o que é a água. Assim, torna-se possível saber os elementos que ela contém, quais as diferentes formas que assume e qual sua natureza. Contudo, é impossível saber por esse meio o que é a água em si. Acontece o mesmo conosco. Precisamos de algumas instruções, mas só pelo estudo do que foi ensinado não é possível saber o que "eu" sou em mim mesmo. Através do ensino podemos compreender nossa natureza humana. Porém os ensinamentos não são nós mesmos: são uma explicação sobre nós. Portanto, se você se apegar ao ensinamento ou ao mestre, cairá em um grande erro. Quando encontrar um mestre deve "deixá-lo" e ser independente. Você tem necessidade de mestre para tornar-se independente. Se não se apegar a ele, o mestre lhe mostrará o caminho em direção a você mesmo, e você terá um mestre por você e não por ele. (...) Nós estudamos para nos tornarmos independentes. Como os cientistas, temos que dispor de meios para estudar. Precisamos de um professor porque é impossível  estudar a si mesmo por conta própria. Mas não se engane, não tome para si próprio aquilo que aprendeu do mestre. O estudo que você faz com seu mestre é parte de sua vida diária, parte de uma atividade incessante. Neste sentido, não há diferença entre a prática e a atividade da sua vida diária. Portanto, encontrar o sentido de sua vida no zendô é encontrar o sentido de sua atividade cotidiana. Pratica-se zazen para tomar consciência do sentido da vida.
(Shunryu Suzuki -  Mente Zen, mente de principiante - pg. 72-73- Palas Athena)

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Aceita as críticas e sujeita-te às calúnias dos outros. Eles acabam se cansando por quererem incendiar o céu com uma tocha. Quando tu os escutas, é como se bebesses um doce néctar. Ele se dissolve instantaneamente e ingressa no mistério.

Se as pessoas o criticam, não preciso se zangar. Deixe passar. Budha foi muito criticado.

Um dia, um brâmane sentou-se diante dele e atacou-o abertamente. Budha não ze zangou, esperou que o brâmane  terminasse seu discurso e disse: "Terminou as suas críticas?" "Sim, terminei." "Então pode levá-las com você porque eu não preciso delas." Se você aceitar as críticas dessa forma, elas irão desparecer por si mesmas.

Se, pelo contrário, você se enraivecer, você as atiçará. Se você as deixar passar, elas desabarão, pois é como querer incendiar o céu com uma pequena chama.

Você não deve entrar em movimento pela ação da crítica nem do louvor.

A crítica dos outros pode ser útil. Nesse sentido, o poema diz que ela é como um néctar.

O último verso: "Este néctar se dissolve instantaneamente e ingressa no mistério", significa que o ego penetra a verdade cósmica e que a verdade cósmica penetra o ego.

Em japonês: Nyu-ga ga-nyu.

A verdade cósmica entra no ego; o sistema cósmico segue o ego, o ego entra na verdade cósmica; o ego segue o sistema cósmico.

Se você receber críticas das pessoas, essas pessoas entram em você; então, o adversário desaparece, e ninguém mais critica.

Não é necessário, então, pensar de um ponto de vista relativo.

(Shodoka - O canto do Satori imediato - O texto sagrado essencial do Zen. Tradução e comentários do Mestre Taisen Deshimaru Roshi - Ed. Pensamento - 1978, p.86-87)

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Os Preceitos de Bodisatva

Os Três Preceitos Puros são:

Evitar o mal.
Fazer o bem.
Fazer o bem aos outros.


"Evitar o mal" enfatiza não contribuir para o aumento da delusão no mundo, sendo essencialmente uma forma passiva de olhar a vida. Por contraste, "Fazer o bem" enfatiza agir para o aumento da clarificação espiritual no mundo, sendo, por isso, uma forma mais ativa de ver a vida. "Fazer o bem" enfoca o que podemos fazer para melhorar nossa própria situação. "Fazer o bem aos outros" aciona todas as esferas aparentemente externas a nós mesmos. O primeiro e o segundo Preceitos Puros lidam conosco e o terceiro com os outros.

Quando falamos do ponto de vista intrínseco, onde não há separação entre o eu e o outro, os três preceitos se fundem.

Toda a ação que fazemos pode ser encarada do ponto de vista dos Três Preceitos Puros. Sempre podemos nos perguntar: o que estou fazendo, exatamente agora, é mau ou me torna uma pessoa mais deludida? O que estou fazendo, neste exato instante, melhora minha situação ou me traz o bem? O que estou fazendo agora é bom para os outros? "Evitar o mal" me diz para não fazer nada que possa vir a tornar a situação mais deludida. O que estou fazendo me ajuda a entender o significado da vida? Essa questão se origina do ponto de vista do "Fazer o bem." O que estou fazendo ajuda as pessoas a entenderem o significado da vida? Essa questão se origina do ponto de vista do "Fazer o bem aos outros."

Vamos dar uma olhada na atividade da meditação Zen (Zazen) em termos dos Três Preceitos Puros. Quando a vemos como um tempo que nos damos do estresse da vida diária, nós a consideramos em termos de "Evitar o Mal". Quando a encaramos como uma terapia individual - para encontrar paz de espírito, tranquilidade, descanso, etc. - nós a encaramos em termos de "Fazer o Bem".

Entretando, é no "Fazer o bem aos outros" que reside a maior importância do Zazen porque este progressivamente quebra a distinção entre o eu e o outro. Trata-se de uma fonte de energia poderosa e irrestrita que flui de forma natural e se estende infinitamente a todo o universo. Não se pode tentar pará-la porque, se o fizermos, não se tratará  mais de prática Zen, já que o Zen equivale a toda a vida. Aquelas pessoas que buscam no Zen algum tipo de santuário estão implicitamente rejeitando a vida inteira e se contentando com apenas uma parte dela onde possam se sentir à vontade. Temos que ser o Bodisatva "praticando em profunda prajnaparamita", o que significa abandonar qualquer fantasia de descanso. Quando fazemos Zazen nos tornamos conscientes de um centro sem forma - como o olho de um furacão - que é extremamente calmo e, ao mesmo tempo, um redemoinho de tremenda atividade abrangendo tudo. A energia do Zazen naturalmente nos leva além dos preceitos "Evitar o mal " e "Fazer o bem", ambos restritos à esfera do eu, para a esfera do "Fazer o bem aos outros".

(Os Preceitos de Bodisatva - Perspectivas literal, subjetiva e intrínseca, Glassman, Bernard (Bernard Tetsugen. In: Infinite Circle in Zen/Bernie Glassman. Tradução de Gozen Míriam Martinho. Boston Massachussets: Shambala Publications, Inc., 2002, p. 109-117.) 

sexta-feira, 13 de maio de 2011

ZEN DA PAZ
Prática do silêncio



Dia 21 de maio de 2011 - Sábado
Das 7h00 às 11h15
Centro Cultural Brasília - 602 Norte - ao lado do Serpro

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Seja Buda, Buda sentado, Buda em pé, Buda deitado. Em qualquer posição mantenha este ser iluminado vivo em você. Não sente de qualquer jeito. Não coma de qualquer jeito. Não durma de qualquer jeito. Mas tenha a presença absoluta, tenha consciência de seu corpo. Seja presente.
É preciso começar a andar com dignidade, dignidade de seres iluminados.
Monja Coen
Extraído de “Palestra do Darma” na Comunidade Zen Budista – 22/02/2011
 

terça-feira, 3 de maio de 2011

Maka Hannya Haramita Shingyo

Sutra do Coração da Grande Sabedoria Completa
Quando kanzeon bodisatva praticava
Em profunda sabedoria completa
Claramente observou
O vazio dos cinco agregados
Assim se libertando
De todas tristezas e sofrimentos.
Oh! Sariputra!
Forma não é mais que vazio.
Vazio não é mais que forma.
Forma é extamente vazio.
Vazio é exatamente forma.

Sensação, conceituação, diferenciação, conhecimento
Assim também o são.
Oh! Sariputra!
Todos os fenômenos são vazio-forma,
Não nascidos, não mortos,
Não puros, não impuros,
Não perdidos, não encontrados
Assim é tudo dentro do vazio.
Sem forma, sem sensação,
Conceituação, diferenciação, conhecimento;
Sem olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo, mente,
Sem cor, som, cheiro, sabor, tato, fenômeno.
Sem mundo de visão, sem mundo de consciência,
Sem ignorância, sem fim à ignorância,
Sem velhice e morte e sem fim à velhice e morte.
Sem sofrimento, sem causa, sem extinção e sem caminho.
Sem sabedoria e sem ganho.
Sem nenhum ganho.
Bodisatva
Devido à sabedoria completa.
Coração-mente sem obstáculos.
Sem obstáculos, logo sem medo.
Distante de todas delusões,
Isto é nirvana.
Todos Budas dos três mundos
Devido à sabedoria completa
Obtém anokutara san myaku san bodai.
Saiba que sabedoria completa
É expressão de grande divindade,
Expressão de grande claridade,
Expressão insuperável,
Expressão inigualável,
Com capacidade de remover
Todo o sofrimento.
Isto é verdade, não é mentira!
Assim, invoque e expresse a sabedoria completa,
Invoque e repita:
Gya-tei gya-tei
Ha-ra gya-tei
Hara so gya-tei
Bo-ji-sowa-ka
Sutra do coração da grande sabedoria completa
(site monja Coen Sensei - textos tradicionais)

terça-feira, 26 de abril de 2011

A prática não vai nos fazer virar de uma coisa em outra. É porque já somos, já temos em nós a condição e a capacidade de acessar um plano superior de consciência. Podemos fazer qualquer coisa, podemos matar, podemos roubar, podemos abusar da sexualidade, podemos mentir, podemos traficar drogas, manipular os outros. Nós podemos fazer tudo isso, mas nos comprometemos a não fazer, e é preciso esforço, porque a nossa tendência, é a tendência cultural da época em que vivemos.

(Monja Coen- Extraído de “Palestra do Darma” na Comunidade Zen Budista – verão 2010)

terça-feira, 19 de abril de 2011

A prática é mais fácil com uma Sangha

Quando sentamos juntos como uma Sangha, desfrutamos a energia coletiva da atenção plena e cada um de nós permite que a energia atenta da Sangha nos penetre. Mesmo se você não fizer nada, se você apenas parar de pensar e se permitir absorver a energia coletiva da Sangha, isso é muito curativo. Não lute, não tente fazer alguma coisa, apenas se permita estar com a Sangha. Permita a si mesmo descansar e a energia da Sangha irá ajudá-lo, irá carregá-lo e apoiá-lo. A Sangha existe para facilitar o treinamento. Quando estamos rodeados por irmãos e irmãs que fazem exatamente a mesma coisa, é fácil fluir na corrente da Sangha.
(Thich Nhat Hanh - Eu busco refúgio na Sangha - Um caminho espiritual - Ed. Vozes)

terça-feira, 12 de abril de 2011

Shinjin Gakudo


Aprendendo através do corpo e da mente



Todos possuem internamente a mente-Buda, mas se falharem em praticar o verdadeiro Caminho ela permanecerá adormecida. Temos, entretanto, o exemplo da prática Budista a seguir e se nós perseverarmos nossa mente-Buda se manifestará e poderemos receber o selo da transmissão.

O que aprendemos quando confrontamos a mente-Buda? Primeiro, considere as várias formas de montanhas, água e terra. Há muitas espécies de montanhas; algumas são como o grande Monte Sumeru, enquanto outras são pequenas; algumas cobrem uma vasta expansão territorial, outras são muito altas. Água também existe em várias formas: celestial, terrestre, grandes rios, pequenos riachos, grandes e pequenos (ponds), oceanos, lagos, etc. E quem pode descrever os vários formatos que a terra adquire?

Lembre-se, entretanto, que a terra nem sempre é solo. Simbolicamente há a terra do coração e a terra do tesouro. Ainda assim todas essas terras são baseadas na experiência de iluminação. Montanhas, água e terra tem sua origem no "vazio" e são a manifestação de "Forma é vazio".

Cada um tem um conceito diferente em relação aos fenômenos naturais, há muitas interpretações do sol, lua, estrelas e água. Por exemplo, pessoas na terra vêem a água  como nada especial, mas celestiais a consideram um grande tesouro. Diferente perspectiva, diferente observação. Para ver propriamente, precisamos aceitá-los como são - precisamos combinar o "que vê" e o "visto" em uma ação. Nossa mente deve ser avivada pela ação da mente não dividida.

Abandone noções de dentro e fora, indo ou vindo. Mente não dividida não tem dentro nem fora; vem e vai livremente, sem amarras. Um pensamento: montanha, água e terra. Novo pensamento: uma nova montanha, água e terra. Cada pensamento é independente, criado de novo, vital e instantâneo.


(trechos de Shinjin Gakudo - trad. Coen Sensei.do)

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Mensagem da Monja Coen sobre o Japão de agora

 

Quando voltei ao Brasil, depois de residir doze anos no Japão, me incumbi da difícil missão de transmitir o que mais me impressionou do povo Japonês: kokoro.
Kokoro ou Shin significa coração-mente-essência.
Como educar pessoas a ter sensibilidade suficiente para sair de si mesmas, de suas necessidades pessoais e se colocar à serviço e disposição do grupo, das outras pessoas, da natureza ilimitada?
Outra palavra é gaman: aguentar, suportar. Educação para ser capaz de suportar dificuldades e superá-las.
Assim, os eventos de 11 de março, no Nordeste japonês, surpreenderam o mundo de duas maneiras. A primeira pela violência do tsunami e dos vários terremotos, bem como dos perigos de radiação das usinas nucleares de Fukushima. A segunda pela disciplina, ordem, dignidade, paciência, honra e respeito de todas as vítimas. Filas de pessoas passando baldes cheios e vazios, de uma piscina para os banheiros.

Nos abrigos, a surpresa das repórteres norte americanas: ninguém queria tirar vantagem sobre ninguém. Compartilhavam cobertas, alimentos, dores, saudades, preocupações, massagens. Cada qual se mantinha em sua área. As crianças não faziam algazarra, não corriam e gritavam, mas se mantinham no espaço que a família havia reservado.

Não furaram as filas para assistência médica – quantas pessoas necessitando de remédios perdidos – mas esperaram sua vez também para receber água, usar o telefone, receber atenção médica, alimentos, roupas e escalda pés singelos, com pouquíssima água.
Compartilharam também do resfriado, da falta de água para higiene pessoal e coletiva, da fome, da tristeza, da dor, das perdas de verduras, leite, da morte.

Nos supermercados lotados e esvaziados de alimentos, não houve saques. Houve a resignação da tragédia e o agradecimento pelo pouco que recebiam. Ensinamento de Buda, hoje enraizado na cultura e chamado de kansha no kokoro: coração de gratidão.
Sumimasen é outra palavra chave. Desculpe, sinto muito, com licença. Por vezes me parecia que as pessoas pediam desculpas por viver. Desculpe causar preocupação, desculpe incomodar, desculpe precisar falar com você, ou tocar à sua porta. Desculpe pela minha dor, pelo minhas lágrimas, pela minha passagem, pela preocupação que estamos causando ao mundo. Sumimasem.
Quando temos humildade e respeito pensamos nos outros, nos seus sentimentos, necessidades. Quando cuidamos da vida como um todo, somos cuidadas e respeitadas.
O inverso não é verdadeiro: se pensar primeiro em mim e só cuidar de mim, perderei. Cada um de nós, cada uma de nós é o todo manifesto.
Acompanhando as transmissões na TV e na Internet pude pressentir a atenção e cuidado com quem estaria assistindo: mostrar a realidade, sem ofender, sem estarrecer, sem causar pânico. As vítimas encontradas, vivas ou mortas eram gentilmente cobertas pelos grupos de resgate e delicadamente transportadas – quer para as tendas do exército, que serviam de hospital, quer para as ambulâncias, helicópteros, barcos, que os levariam a hospitais.
Análise da situação por especialistas, informações incessantes a toda população pelos oficiais do governo e a noção bem estabelecida de que "somos um só povo e um só país".
Telefonei várias vezes aos templos por onde passei e recebi telefonemas. Diziam-me do exagero das notícias internacionais, da confiança nas soluções que seriam encontradas e todos me pediram que não cancelasse nossa viagem em Julho próximo.
Aprendemos com essa tragédia o que Buda ensinou há dois mil e quinhentos anos: a vida é transitória, nada é seguro neste mundo, tudo pode ser destruído em um instante e reconstruído novamente.

Reafirmando a Lei da Causalidade podemos perceber como tudo está interligado e que nós humanos não somos e jamais seremos capazes de salvar a Terra. O planeta tem seu próprio movimento e vida. Estamos na superfície, na casquinha mais fina. Os movimentos das placas tectônicas não tem a ver com sentimentos humanos, com divindades, vinganças ou castigos. O que podemos fazer é cuidar da pequena camada produtiva, da água, do solo e do ar que respiramos. E isso já é uma tarefa e tanto.

Aprendemos com o povo japonês que a solidariedade leva à ordem, que a paciência leva à tranquilidade e que o sofrimento compartilhado leva à reconstrução.
Esse exemplo de solidariedade, de bravura, dignidade, de humildade, de respeito aos vivos e aos mortos ficará impresso em todos que acompanharam os eventos que se seguiram a 11 de março.
Minhas preces, meus respeitos, minha ternura e minha imensa tristeza em testemunhar tanto sofrimento e tanta dor de um povo que aprendi a amar e respeitar.
Havia pessoas suas conhecidas na tragédia?, me perguntaram. E só posso dizer : todas. Todas eram e são pessoas de meu conhecimento. Com elas aprendi a orar, a ter fé, paciência, persistência. Aprendi a respeitar meus ancestrais e a linhagem de Budas.

Mãos em prece (gassho)
Monja Coen

Publicado no blog Jojoscope

sexta-feira, 1 de abril de 2011


Pedido de doação às vítimas do tsunami


            Diante da situação ocorrida no Japão, quando das ondas gigantescas vindas do Pacífico – Tsunami – que atingiram toda a costa nordeste do país, e em seu poder de destruição ceifou  a vida de em torno de dez mil almas, além de outros tantos desaparecidos, destruiu casas, plantações e toda infra-estrutura local, calamidade esta em que os sobreviventes  tentam a duras penas refazer-se, toda ajuda humanitária vinda de qualquer parte do mundo é apreciada neste momento.
            Ainda que aquele povo, acostumado às catástrofes provocadas pela natureza, encontre forças para reerguerem-se, um fato notório, necessitam do apoio de outros povos, culturas diferentes, que possam juntar forças em prol do bem estar daqueles que sofrem as dores da destruição.
            Nesse sentido, pedimos que também possamos nos unir nesta corrente de ajuda mútua, compartilhando um sentimento comum no reparo material e emocional dos que foram diretamente afetados pelos acontecimentos. Do pouco que possamos fazer, em muito será de validade para as vítimas. Sendo assim, se a ajuda humanitária é de ordem material, possamos nos disponibilizar a doar algum valor em moeda corrente.
            Se esta mensagem teve a capacidade de sensibilizar os corações puros e despojados, pedimos que as doações sejam endereçadas à Missão da Escola Soto Zen da América do Sul. Fica em anexo ao Templo Busshinji, a rua São Joaquim, 285, Bairro da Liberdade, São Paulo, SP; fone (011) 3208-4515.



Gomunidade Budista Soto Zenshu da América do Sul
CNPJ:44.019.859/0001-18
Banco do Brasil
Agência :4054-1 Xavier do Toledo
Conta Corrente:12000-

*Por favor enviar o comprovante do depósito Fax ou E-mail
FAX:(11)3208-0418    E-mail Busshinji_sp@hotmail.co.jp



Superintendente da América do Sul
Superior Dosho Saikawa


quinta-feira, 31 de março de 2011

A Prática Correta por Shunryu Suzuki

Postura
Hoje, eu gostaria de falar sobre a postura zazen. Quando você se senta na posição de lótus completo, seu pé esquerdo fica sobre sua coxa direita, seu pé direito, sobre a coxa esquerda. Ao cruzarmos as pernas desse jeito, embora tenhamos uma perna esquerda e outra direita, elas se tornam uma só. A postura expressa a unidade da dualidade: nem dois, nem um. Este é o ensinamento mais importante: nem dois, nem um. Nosso corpo e mente não são dois, nem um. Se você pensa que seu corpo e mente são dois, está errado. Se pensa que são um, também está errado. Nosso corpo e mente são dois e um ao mesmo tempo. Habitualmente, pensamos que se algo não é um, é mais do que um; que se algo não é singular, é plural. Mas, na prática, nossa vida não é só plural, é também singular. Cada um de nós é duas coisas ao mesmo tempo: dependente e independente.


Depois de viver certo número de anos, morremos. É errado pensar que isto seja o fim de nossa vida. Mas, por outro lado, achar que não morremos também está errado. Morremos e não morremos. Este é o entendimento correto. Alguns podem dizer que nossa mente, ou alma, existe para sempre e que é apenas nosso corpo físico que morre. Isso não é bem assim porque ambos, corpo e mente, têm fim. Mas, também é verdade que ambos existem eternamente. Embora se diga corpo e mente, eles são de fato dois lados da mesma moeda. Este é o entendimento correto. Assim, a postura zazen simboliza essa verdade. Quando meu pé esquerdo está sobre o lado direito de meu corpo e o pé direito sobre o lado esquerdo, eu não sei qual é qual. Tanto pode ser um como outro.
A coisa mais importante na postura zazen é manter a coluna reta. Orelhas e ombros devem ficar alinhados. Relaxe os ombros e estique a parte superior da cabeça em direção ao teto. O queixo deve ficar ligeiramente recuado para dentro. Quando o queixo está erguido, você não tem firmeza na postura, com o que e provável que sua mente se ponha a vaguear. Assim, para reforçar sua postura, pressione o diafragma para baixo, em direção ao seu hara ou parte baixa do abdome. Isso o ajudará a manter o equilíbrio físico e mental. Ao tentar manter essa postura, poderá encontrar alguma dificuldade inicial em respirar de maneira natural, mas quando se acostumar a ela será capaz de respirar normal e profundamente.
Suas mãos devem formar o mudra cósmico. Se puser o dorso da mão esquerda sobre a palma da direita, as juntas dos dedos médios encostadas umas sobre as outras, as pontas dos polegares tocando-se levemente (como se estivessem segurando uma folha de papel), suas mãos formarão um belo oval. Mantenha esse mudra cósmico com todo cuidado, como que segurando algo precioso. Suas mãos devem estar junto ao corpo, de forma que os polegares fiquem à altura do umbigo. Mantenha os braços livres e relaxados, ligeiramente afastados do tronco, como se estivessem segurando um ovo em cada axila, sem quebrá-lo.
Não deve inclinar-se para os lados, nem para a frente, nem para trás. Deve ficar sentado bem reto, como se estivesse sustentando o céu sobre a cabeça. Isto não é apenas postura ou respiração. Isto expressa o ponto chave do buddhismo. E uma expressão perfeita da sua própria natureza búddhica. Se você busca a verdadeira compreensão do buddhismo, tem de praticar deste modo. Estas formas não são meios para obter um estado mental correto. Assumir a postura já é, em si, o propósito da nossa prática. Ao se colocar nessa postura, sua mente fica naturalmente em estado correto; portanto, não há necessidade de buscar um estado especial da mente. Quando você tenta obter algo, sua mente começa a divagar por outros lugares. Quando você não se ocupa em obter algo, seu corpo e sua mente permanecem juntos, presentes onde você está. Um mestre Zen diria: "Mate o Buddha". Isto é, mate o Buddha se ele existe em algum outro lugar. Mate o Buddha porque é você que deve reaver sua própria natureza búddhica.
Fazer algo é expressar nossa natureza. Não existimos por nenhuma outra razão senão a de sermos nós mesmos. Esse é o ensinamento fundamental, expresso nas formas que observamos. Por exemplo, quando nos sentamos ou ficamos em pé no zendô, seguimos certas regras. O propósito dessas regras não é fazer com que todos sejam iguais e sim permitir que cada um expresse o seu próprio eu mais livremente. Por exemplo: cada um de nós tem sua própria maneira de ficar em pé - nossa postura em pé é baseada na proporção do nosso corpo. Quando estiver em pé, seus calcanhares devem ficar separados um do outro a uma distância que corresponda à medida de seu punho: os dedões dos pés devem ficar alinhados com os mamilos. Assim como no zazen, temos que pôr alguma força no abdome. Aqui também suas mãos devem expressar o que você é. Ponha a mão esquerda contra o peito, com os dedos circundando o polegar, e a mão direita sobre ela. Colocando o polegar esquerdo apontado para baixo e os antebraços em linha paralela ao chão, você se sentirá firme como se estivesse seguro a uma grande coluna de um templo, sem possibilidade de encolher-se ou pender para os lados.
O mais importante é estar de posse do próprio corpo físico. Se você se encolhe, está se perdendo de si mesmo. Sua mente estará divagando alhures; você não estará presente em seu corpo. Não é assim que deve ser. Nós temos que existir no aqui e agora. Este é o ponto chave. Você tem que estar de posse de seu corpo e mente. Tudo deve existir no lugar certo e de maneira certa. Então não há problemas. Se o microfone que eu uso quando falo estiver colocado em outro lugar, ele não estará servindo ao seu propósito. Quando nosso corpo e mente estão em ordem, tudo o mais está no seu devido lugar, de forma certa.
Usualmente, sem que tenhamos consciência disso, tentamos mudar as coisas em vez de mudar a nós mesmos; tentamos arrumar as coisas que estão fora de nós. Mas é impossível ordenar as coisas se você mesmo não está em ordem. Quando você faz as coisas de forma certa, no momento oportuno, tudo o mais se organiza. Você é o chefe. Quando o chefe está dormindo, todos dormem. Quando ele faz algo bem feito, todos os demais o fazem igualmente bem e no tempo certo. Este é o segredo do buddhismo. Portanto, procure manter a postura correta, não apenas quando pratica zazen mas em todas as suas atividades. Adote a postura certa quando estiver dirigindo um carro ou quando estiver lendo. Se você lê numa posição displicente, não pode ficar lúcido por muito tempo. Experimente. Você descobrirá como é importante manter a postura correta. Este é o ensinamento verdadeiro. Ensinamentos escritos no papel não são verdadeiros ensinamentos, são alimento para o cérebro. Claro que é preciso alimentar o cérebro; porém, o mais importante é ser você mesmo praticando a forma correta de viver.
Eis por que o Buddha não pôde aceitar as religiões que existiam na sua época. Ele estudou várias religiões mas não ficou satisfeito com suas práticas. Não encontrou respostas no ascetismo ou nas filosofias. Ele não estava interessado nos aspectos metafísicos da existência, e sim em seu próprio corpo e sua própria mente no aqui e agora. E quando encontrou a si mesmo, descobriu que tudo quanto existe tem natureza búddhica. Essa foi sua iluminação. Iluminação não é uma sensação agradável ou algum estado particular da mente. O estado da mente que existe quando você se senta em postura correta é, por si só, iluminação. Se você não está satisfeito com o estado da mente que tem no zazen, significa que sua mente está divagando por aí afora.
E nosso corpo e nossa mente não devem oscilar nem vaguear. Nessa postura, não há por que falar em estado correto da mente. Você já o possui. Esta é a conclusão do buddhismo.
Respiração
Quando praticamos zazen, nossa mente sempre segue a respiração. Quando inalamos, o ar entra em nosso mundo interior. Quando exalamos, o ar sai para o mundo exterior. O mundo interior não tem Limites e o mundo exterior também é ilimitado. Nós dizemos "mundo interior" e "mundo exterior", mas, na verdade, só há um único mundo. Nesse mundo sem limites, a garganta é uma espécie de porta de vaivém, O ar entra e sai como alguém passando por uma porta de vaivém. Se você pensa "eu respiro", o "eu" está a mais. Não há um você para dizer "eu". O que chamamos "eu" é apenas uma porta de vaivém que se move quando inalamos e exalamos. Ela simplesmente se move, eis tudo. Quando sua mente está pura e calma o suficiente para seguir esse movimento, não há nada: nem "eu", nem mundo, nem mente, nem corpo. Só uma porta que vai e vem.
Assim, quando praticamos zazen, tudo o que existe é o movimento da respiração e, no entanto, estamos cônscios desse movimento. Não devemos nunca nos distrair. Mas estar consciente do movimento não significa estar consciente do eu pequeno, e sim da nossa natureza universal, ou natureza de Buddha. Esta consciência é muito importante porque em geral somos unilaterais. Nossa compreensão habitual da vida é dualista: você e eu, isto e aquilo, bom e mau. Na realidade, tais discriminações são, elas próprias, a consciência da existência universal. "Você" significa estar consciente do universo na forma de você, e "eu" significa estar consciente do universo na forma de eu. Você e eu somos portas de vaivém. E necessário este tipo de compreensão; porém, nem sequer deveria chamar-se compreensão já que é, isto sim, a verdadeira experiência da vida através da prática do Zen.
Assim, quando você pratica zazen, não há idéia de tempo e espaço. Você pode dizer: "Começamos o zazen neste recinto às quinze para as seis". Portanto, você tem alguma idéia de tempo (quinze para as seis) e alguma idéia de espaço (neste recinto). Na verdade, o que você está fazendo é apenas sentar-se cônscio da atividade do universo. E tudo. Neste momento, a porta de vaivém se abre numa direção, e no momento seguinte ela se abrirá na direção oposta. Momento a momento, cada um de nós repete essa atividade. Aí não há idéia nem de tempo nem de espaço. Tempo e espaço são um. Você pode dizer: "Preciso fazer algo hoje à tarde". Mas, na realidade, não há "hoje à tarde". Fazemos uma coisa depois da outra. Eis tudo. Não existe um tempo como "hoje à tarde" ou "uma hora" ou "duas horas". A uma hora você vai almoçar. O próprio ato de almoçar é à uma hora. Você estará em algum lugar, mas esse lugar não pode ser separado de "à uma hora". Para quem realmente aprecia sua vida, eles são a mesma coisa. Mas quando ficamos aborrecidos com a vida, podemos dizer: "Eu não devia ter vindo a este lugar. Teria sido melhor ir a outra parte para almoçar. Este lugar não é muito bom". Na sua mente, você criou uma idéia de lugar desvinculada do seu tempo presente.
Ou você pode dizer: "Isto é mau, eu não devo fazer isto". Na verdade, quando diz "eu não devo fazer isto", você está fazendo um não-fazer nesse preciso momento. Portanto, não há escolha para você. Quando você separa a idéia de tempo e de espaço, parece que há alguma escolha; mas, na realidade, você tem de fazer algo ou tem de fazer um não-fazer. Não fazer algo é também fazer alguma coisa. Bom e mau existem só na sua mente. Por isso você não deve dizer: "Isto é bom", ou isto é mau". Em vez de "mau", você deve dizer "não-fazer". Se você pensa "isto é mau", estará criando confusão para si mesmo. Assim, pois, na esfera da religião pura não há confusão de tempo e espaço, de bom ou mau. Tudo o que se tem a fazer é simplesmente executar as coisas tal como se apresentam. Faça alguma coisa! Seja o que for, devemos fazê-lo, mesmo que se trate de um não-fazer. Devemos viver neste momento. Assim, quando nos sentamos, concentramo-nos em nossa respiração, nos tornamos uma porta de vaivém e fazemos o que deve ser feito, algo que temos de fazer. Isto é prática do Zen. Nesta prática não há confusão. Se você estabelecer este modo de vida, não haverá confusão de nenhuma espécie.
Tôzan, um famoso mestre Zen, disse: "A montanha azul é o pai da nuvem branca. A nuvem branca é o filho da montanha azul. O dia todo eles dependem um do outro, sem que um seja dependente do outro. A nuvem branca é sempre a nuvem branca. A montanha azul é sempre a montanha azul". Eis uma pura e clara interpretação da vida. Pode haver muitas coisas como a nuvem branca e a montanha azul: homem e mulher, mestre e discípulo. Dependem um do outro. Mas a nuvem branca não deve ser importunada pela montanha azul. A montanha azul não deve ser importunada pela nuvem branca. Elas são totalmente independentes e, não obstante, dependentes. E assim que vivemos e é assim que praticamos zazen. Quando nos tornamos verdadeiramente nós mesmos, nos tornamos somente uma porta de vaivém: somos inteiramente independentes e, ao mesmo tempo, dependentes de todas as coisas. Sem ar não podemos respirar. Cada um de nós está no centro de miríades de mundos. Estamos no centro do mundo, sempre, momento a momento. Assim, somos completamente dependentes e independentes. Se você tem este tipo de experiência, este modo de existência, você tem absoluta independência; não será importunado por coisa alguma. Portanto, quando você pratica zazen, sua mente deve estar concentrada na respiração. Este tipo de atividade é a atividade básica do ser universal. Sem esta experiência, sem esta prática, é impossível atingir a plena liberdade.
As Ondas Mentais
"Uma vez que desfrutamos todos os aspectos da vida como um desdobramento da mente grande, não precisamos ir em busca de uma alegria excessiva. Assim, nossa serenidade é imperturbável."
Quando estiver praticando zazen, não tente deter seu pensamento. Deixe que ele pare por si mesmo. Se alguma coisa lhe vier à mente, deixe que entre e deixe que saia. Ela não permanecerá por muito tempo. Tentar parar o pensamento significa que você está sendo incomodado por ele. Não se deixe incomodar por coisa alguma. Pode parecer que essa coisa vem de fora mas, na verdade, são apenas as ondas de sua mente e se você não se deixar incomodar por elas, gradualmente se tornarão mais e mais calmas. Em cinco ou dez minutos, no máximo, sua mente estará calma, serena. Sua respiração então se tornará mais lenta e a pulsação, um pouco mais acelerada.
Leva um certo tempo até que a mente se acalme durante sua prática. Surgem muitas sensações, muitos pensamentos ou imagens, mas são apenas ondas da própria mente. Nada vem de fora dela. Em geral, pensamos que nossa mente recebe impressões e experiências do exterior mas isso não é uma compreensão correta da nossa mente. A verdade é que a mente inclui tudo; quando pensamos que algo surge de fora, isso quer dizer somente que algo surge na nossa própria mente. Nada exterior a si mesmo pode perturbá-lo. E você mesmo que cria as ondas da mente. Se deixar a mente como ela é, ela se tornará calma. Esta é a chamada mente grande.
Quando a mente está vinculada a algo fora dela própria, trata-se da pequena mente, uma mente limitada. Se sua mente não estiver vinculada a nada, então não haverá mais compreensão dualista na atividade de sua mente. Compreenderá que a atividade não é mais do que ondas da sua mente. A mente grande experimenta tudo dentro de si própria. Percebe a diferença entre ambas? A mente que tudo inclui e a mente ligada a alguma coisa em particular? Na verdade, elas são a mesma coisa a compreensão é que é diferente, e sua atitude perante a vida será diferente de acordo com a compreensão que você tiver.
Que tudo esteja incluído na mente é a essência da mente; e a experiência disto é a posse do sentimento religioso. Embora as ondas surjam, a essência da sua mente é pura, como água clara com poucas ondas. Na verdade, a água tem sempre ondas. Elas são a prática da água. Falar de ondas separadas da água, ou da água separada das ondas, é uma ilusão. Água e ondas são uma só coisa. A grande e a pequena mente são uma só. Quando você entender sua mente desta maneira, terá alguma segurança em seus sentimentos. Como sua mente nada espera de fora, ela está sempre completa. Uma mente com ondas não é uma mente perturbada e sim ampliada. Qualquer coisa que você experimente é uma expressão da mente grande.
A atividade da mente grande é ampliar a si mesma através das diversas experiências. Em certo sentido nossas experiências, ocorrendo uma a uma, são sempre frescas e novas, mas em outro sentido não passam de um contínuo e repetitivo desdobramento da mente grande. Por exemplo, se há algo bom para o desjejum, você dirá "isto é bom". O "bom" provém de alguma coisa experimentada há tempos, ainda que você não lembre quando. Com a mente grande, nós aceitamos cada experiência do mesmo modo que reconhecemos a face que vemos no espelho como a nossa própria face. Para nós, praticantes, não existe o medo de perder essa mente. Não há qualquer lugar, nem para onde ir, nem de onde voltar; não existe medo da morte, do sofrimento da velhice ou da doença. Uma vez que desfrutamos todos os aspectos da vida como um desdobramento da mente grande, não precisamos ir em busca de uma alegria excessiva. Assim, nossa serenidade é imperturbável, e é com essa imperturbável serenidade da mente grande que praticamos zazen.

Suzuki, Shunryu. Mente Zen, Mente de Principiante.
Editado por Trudy Dixon, prefácio de Huston Smith,
introdução de Richard Baker, tradução de Odete Lara.
São Paulo: Palas Athena, 1994. Pág. 23-29, 32-34.

do site Daissen Zendô

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arte: Hugo Pullen