segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Respiração

Foto: Lou Gaioto


Quando praticamos zazen, nossa mente sempre segue a respiração.

Quando inalamos, o ar entra em nosso mundo interior.
Quando exalamos, o ar sai para o mundo exterior. O mundo
interior não tem limites e o mundo exterior também é ilimitado.
Nós dizemos "mundo interior" e "mundo exterior", mas, na
verdade, só há um único mundo. Nesse mundo sem limites, a
garganta é uma espécie de porta de vaivém. O ar entra e sai
como alguém passando por uma porta de vaivém. Se você pensa
"eu respiro", o "eu" está a mais. Não há um você para dizer "eu".
O que chamamos "eu" é apenas uma porta de vaivém que se
move quando inalamos e exalamos. Ela simplesmente se move,
eis tudo. Quando sua mente está pura e calma o suficiente para
seguir esse movimento, não há nada: nem "eu", nem mundo,
nem mente, nem corpo. Só uma porta que vai e vem.
Assim, quando praticamos zazen, tudo o que existe é o movimento
da respiração e, no entanto, estamos cônscios desse movimento.
Não devemos nunca nos distrair. Mas estar consciente
do movimento não significa estar consciente do eu pequeno, e
sim da nossa natureza universal, ou natureza de Buda. 
Esta consciência é muito importante porque em geral 
somos unilaterais.
Nossa compreensão habitual da vida é dualista: você e eu, isto e
aquilo, bom e mau. Na realidade, tais discriminações são, elas
próprias, a consciência da existência universal! "Você" significa
estar consciente do universo na forma de você, e "eu"
significa estar consciente do universo na forma de eu. Você e
eu somos portas de vaivém. É necessário este tipo de compreensão;
porém, nem sequer deveria chamar-se compreensão já
que é, isto sim, a verdadeira experiência da vida através da prática
do Zen.


(MENTE ZEN, MENTE DE PRINCIPIANTE
SHUNRYU SUZUKI)

domingo, 1 de janeiro de 2017

Joya No Kane - Cerimônia de Ano Novo Budista


Na noite de 31 de dezembro, os japoneses vão ao templo assistir à cerimônia do Joya no kane, que consiste em tocar o sino 108 vezes (107 vezes pouco antes da meia-noite e a última badalada à zero hora).
De acordo com a crença budista, as 108 badaladas representam a aspiração que todo devoto deve ter no ano que se inicia, diz respeito aos obstáculos que precisamos vencer para chegar a Iluminação.
Mas quais são esses 108 esforços.
Vamos lá! Tenham um pouco de paciência, afinal são 108.

Cento e Oito Portais da Lei Maravilhosa.

Diz o Sutra:

Quando Bodisatva Hu-ming estava para descender entrou e vasculhou a casa onde iria nascer. Assim tendo feito, instruiu todos os seres celestiais para que se reunissem no imenso palácio Kao-ch'uang, a fim de expor o Dharma para eles como fizera muitas vezes no passado.
Seres Celestiais! Estou para descender ao mundo humano; antes de fazê-lo quero expor as várias entradas do Dharma Maravilhoso e os métodos de alcançar o estado de todas as coisas. Aqui os reuni para dar este meu último ensinamento.
Seres Celestiais! Ao Bodisatva do mais alto nível de Iluminação que desejar descender ao mundo humano é requerido que não apenas exponha os cento e oito portais da Lei Maravilhosa a todos os seres celestiais, mas também que tenha certeza de que estes, deles sempre se lembrem.
Seres Celestiais! Eu vos peço que ouçam atentamente o que vou dizer.

Quais são, então, os cento e oito Portais?

Crença correta é o primeiro, pois mantém a mente firme.
Mente pura é o segundo, pois não possui impurezas.
Alegria é o terceiro, pois é o resultado de uma mente tranquila.
Necessidade da verdade é o quarto, pois promove uma mente pura.
Conduta correta é o quinto, pois é o resultado de ações puras: físicas, da fala e do pensamento.
Falar com pureza é o sexto, pois afasta a mente que leva aos quatro reinos maus do inferno, espíritos famintos, animais e demônios.
Pensamento puro é o sétimo, pois afasta a ganância, raiva e ignorância.
Manter os Budas na mente é o oitavo, pois contemplar os Budas é um ato puro.
Manter o Dharma na mente é o nono, pois contemplar a lei é um ato puro.
Manter a Sangha na mente o décimo, pois garante a realização do Caminho.
Manter a vontade de fazer ofertas em mente é o décimo primeiro, pois tais ofertas são feitas sem esperar nada em troca.
Manter os preceitos em mente é o décimo segundo, pois os preceitos englobam todos os votos.
Manter a vastidão do céu em mente é o décimo terceiro, pois faz surgir a grande mente cósmica.
Benevolência é o décimo quarto, pois faz com que todos os seres façam o bem.
Eliminação de sofrimento é o décimo quinto, pois protege os seres contra a dor.
Felicidade é o décimo sexto, pois elimina a infelicidade.
Abnegação é o décimo sétimo, pois termina com os cinco desejos.
Transciencia é o décimo oitavo, pois apresenta os apegos mundanos.
Contemplação do sofrimento é o décimo nono, pois extingue todos os desejos.
Contemplação do não eu é o vigésimo, pois elimina os apegos ao eu.
Contemplação da impermanencia é o vigésimo primeiro, pois preserva a mente tranquila.
Vergonha é o vigésimo segundo, pois produz uma mente equilibrada.
Timidez é o vigésimo terceiro, pois extingue os males externos.
Sinceridade é o vigésimo quarto, pois não engana ninguém.
Honestidade é o vigésimo quinto, pois evita a decepção.
Agir de acordo com o Dharma é o vigésimo sexto, pois está de acordo com a verdade.
Refugiar-se nos Três Tesouros é o vigésimo sétimo, pois purifica os três reinos maus de inferno, espíritos famintos e animais.
Gratidão é o vigésimo oitavo, pois promove bondade.
Retribuição de bondade é o vigésimo nono, torna a pessoa melhor.
Não se elogiar é o trigésimo, pois previne a superioridade.
Ajudar a todos é o trigésimo primeiro, pois previne a cobiça.
Praticar o Dharma é o trigésimo segundo, pois está de acordo com a verdade.
Usar bem o tempo é o trigésimo terceiro, pois previne as conversas frívolas.
Controle do orgulho é o trigésimo quarto, pois desenvolve a sabedoria.
Ausência de mente má é o trigésimo quinto, pois protege a si mesmo e aos outros.
Estar livre de enganos é o trigésimo sexto, pois evita que as dúvidas surjam.
Crer e compreender são o trigésimo sétimo, pois são as bases da Iluminação.
Contemplar o lixo e a imundice é o trigésimo oitavo, pois ameniza os desejos.
Amizade é o trigésimo nono, pois previne contra a raiva.
Conhecimento é o quadragésimo, pois previne a ignorância.
Seguir o Dharma é o quadragésimo primeiro, pois significa procurar pela verdade.
Amar o Dharma é o quadragésimo segundo, pois garante entender a Lei Verdadeira.
Vontade de ouvir o Dharma é o quadragésimo terceiro, pois o estado de todas as coisas é revelado.
Corretos meios expedientes são o quadragésimo quarto, pois englobam a prática correta.
Reconhecer que o eu é o produto dos cinco elementos é o quadragésimo quinto, pois remove as dúvidas.
Remover a causa da delusão é o quadragésimo sexto, pois garante a Iluminação.
Desapego aos sentimentos de amargura ou afeição é o quadragésimo sétimo, pois a união desses dois sentimentos é assim promovida.
Reconhecer que sofrimento é resultado da união temporária dos cinco agregados é o quadragésimo oitavo, pois revela a verdadeira natureza de todas as coisas compostas.
Reconhecer a existência separada dos quatro elementos é quadragésimo nono, pois elimina a incorreta ideia de que todas as coisas tem uma natureza unificada e independente.
Reconhecer o estado de todas as coisas é o quinquagésimo, pois revela a verdadeira natureza da Iluminação.
Reconhecer que não existem nascimento e morte é o quinquagésimo primeiro, pois assim a Iluminação é autenticada.
Conhecimento da impureza do corpo é o quinquagésimo segundo, pois tudo manifesta a Iluminação.
Conhecimento de que toda apego é sofrimento é o quinquagésimo terceiro, pois elimina todas as sensações incorretas.
Conhecimento da transciencia da mente é o quinquagésimo quarto, pois reconhece sua natureza ilusória.
Conhecimento da não substancialidade de todas as coisas é o quinquagésimo quinto, pois demonstra a perfeita sabedoria.
As quatro espécies de esforço correto são o quinquagésimo sexto, pois eliminam o mal e promovem o bem.
Os quatro poderes são o quinquagésimo sétimo, pois previnem a crença em ensinamentos incorretos.
Fé é o quinquagésimo oitavo, pois previne a crença em ensinamentos não budistas não verdadeiros.
Prática assídua do caminho é o quinquagésimo nono, pois promove a realização de toda a sabedoria.
Manter os ensinamentos de Buda em mente é sexagésimo, pois é a base da boa conduta.
Samadhi é o sexagésimo primeiro, pois purifica a mente.
Sabedoria é o sexagésimo segundo, pois permite ver todas as coisas como elas são.
Poder da fé é o sexagésimo terceiro, pois é superior ao poder dos demônios.
Poder de prática assídua é o sexagésimo quarto, pois previne a negligência.
Poder de concentração é o sexagésimo quinto, pois promove o espírito independente.
Poder de Samadhi é o sexagésimo sexto, pois extingue todos os pensamentos.
Poder da sabedoria é o sexagésimo sétimo, pois elimina as duas visões extremistas (niilismo e materialismo).
A plena atenção é o sexagésimo oitavo, pois permite que a natureza de todas as coisas seja percebida.
A sabedoria do Dharma é o sexagésimo nono, pois ilumina todas as coisas.
A sabedoria da prática assídua é o septuagésimo, pois permite que a verdade seja conhecida.
A felicidade é o septuagésimo primeiro, pois permite que todas as formas de Samadhi se manifestam.
A sabedoria da confiança é o septuagésimo segundo, pois permite a liberdade de ação.
A sabedoria do Samadhi é o septuagésimo terceiro, pois reconhece a equanimidade de tudo.
A sabedoria do desapego é o septuagésimo quarto, pois elimina apego a todos os fenômenos.
Correta compreensão é o septuagésimo quinto, pois garante a realização da Iluminação.
Correto pensar é o septuagésimo sexto, pois elimina pensamentos discriminatórios e não discriminatórios.
Correto falar é o septuagésimo sétimo, pois elimina o apego a nomes, sons e palavras.
Correta forma de vida é o septuagésimo oitavo, pois elimina todos os atos maléficos.
Correta ação é o septuagésimo nono, pois leva à outra margem.
Correta percepção é o octogésimo, pois está além do pensamento dualista.
Correto Samadhi é octogésimo primeiro, pois promove a mente tranquila.
A mente Bodhi é o octogésimo segundo, pois preserva os Três Tesouros.
Praticar o Mahayana é o octogésimo terceiro, pois previne dependência nos ensinamentos menores.
Verdadeira crença é o octogésimo quarto, pois garante a realização da Lei Suprema.
Altruísmo é o octogésimo quinto, pois acelera a realização de todo o bem.
Paramita da Doação é o octogésimo sexto, pois produz a aparência das trinta e duas marcas que distinguem o Buda, o mundo da Iluminação e salva seres da ganância.
Paramita de preservar os preceitos é o octogésimo sétimo, pois elimina a dor que os atos maus produzem e previnem os seres de quebrarem os preceitos.
Paramita da perseverança é o octogésimo oitavo, pois salva os seres da raiva, orgulho, bajulação, do ridículo e da frivolidade.
Paramita de prática assídua é o octogésimo nono, pois garante a realização de todo o bem e previne os seres de se tornarem negligentes.
Paramita de Samadhi é o nonagésimo, pois apressa a manifestação de todas as formas de iluminação e de poderes sobrenaturais promovendo a tranquilidade nos seres humanos.
Paramita da Sabedoria é o nonagésimo primeiro, pois salva os seres da ignorância e do apego.
Ensinamentos corretos são o nonagésimo segundo, pois permitem aos seres compreenderem a verdade de acordo com suas capacidades individuais.
As quatro maneiras de guiar os seres são o nonagésimo terceiro pois garantem que todos alcancem a Iluminação.
Ensinar os seres é o nonagésimo quarto pois previne a procura de prazeres pessoais e promove interesse no ensino.
Aceitar a lei verdadeira é o nonagésimo quinto, pois elimina todas as delusões.
Acumular méritos é o nonagésimo sexto, pois beneficia a todos os seres.
Prática de Samadhi é o nonagésimo sétimo, pois apressa a manifestação dos dez poderes.
Quiescência é o nonagésimo oitavo, pois engloba a Iluminação do Tathagata.
Sabedoria é o nonagésimo nono, pois permite que a essência de todas as coisas seja realizada.
Ensinar livremente o Dharma é o centésimo, pois clarifica a essência da Lei.
Verdadeira prática é o centésimo primeiro, pois esclarece a essência da Lei.
Saber que tudo engloba em um é o centésimo segundo, pois preserva os ensinamentos de Buda.
Obter o poder de ensinar livremente é o centésimo terceiro, pois traz alegria a todos os seres.
Agir de acordo apenas com o Dharma é o centésimo quarto, pois está de acordo com a verdade.
Perceber que tudo está além da vida e da morte é o centésimo quinto pois garante a futura realização do estado de Buda.
Saber que não existe resultado imutável é o centésimo sexto, pois engloba os ensinamentos de todos os Budas.
Avançar nos vários níveis de Bodisatva é o centésimo sétimo, pois antecipa à cerimônia e marca o avanço e a percepção de toda a sabedoria.
O mais alto nível de Bodisatva é o centésimo oitavo, pois garante a realização da Iluminação."
Tendo terminado esta explicação o Bodisatva Hu-ming conclui sua palestra a todos os seres celestiais ali reunidos dizendo:

Seres Celestiais! Vocês devem perceber que eu, agora, os presentei com os Cento e Oito Portais da Lei Maravilhosa. Lembrem-se deles continuamente pois não podem ser esquecidos.
Quando um Bodisatva de um elevado nível de percepção está para descender ao mundo humano, inevitavelmente ensina estas cento e oito entradas a todos os habitantes celestiais.
O Bodisatva Hu-ming era o nome dado a Shakyamuni Buda quando vivia no Céu como um Bodisatva do mais alto nível de Iluminação.

Estes cento e oito portais estão enumerados no T`ien-shêng Kuang - Têng- Lu, compilado por Li Fu-ma.
Shoboguenzo. Ippyaku-hachi Hômyô-mon.
De Mestre Eihei Dogen.

(este texto foi extraido do face do monge Getúlio Taigen)

Arte: Hugo Pullen