quinta-feira, 22 de agosto de 2019

PENSAMENTOS DE MESTRE ECKHART

Sobre a maneira mais poderosa de rezar:

"A maneira mais poderosa de rezar, aquela que é capaz de obter qualquer coisa e é mais meritória, é a que deriva de uma mente desimpedida. Quanto mais desimpedida a mente, mais poderosa, útil e perfeita será a oração. O que é uma mente desimpedida? É aquela que não é perturbada nem alterada por nada, que não se apegou a qualquer modo especial de vida ou de devoção, e que não procura o seu próprio bem em nada, mas que está completamente imersa na preciosa vontade de Deus, tendo saído daquilo que lhe é próprio. Não há obra nenhuma que homens e mulheres possam executar, por mais pequena que seja, que não extraia daí o seu poder e a sua força".


MESTRE ECKHART (1260-1328)

Um dos mais famosos místicos da Idade Média, neste momento em plena fase de "redescoberta", Eckhart nasceu em Hochheim, Alemanha, em 1260. Aos 15 anos entrou para a ordem dos dominicanos. Foi vigário da Turíngia e depois provincial dos dominicanos na Saxônia. Nesse período, envolveu-se em intensos debates teológicos, divergindo muito dos franciscanos. A partir de 1314, morando em Estrasburgo, pregou para um grupo de freiras contemplativas. A audácia e amplitude do seu pensamento (com vigorosas incursões pela metafísica), aliadas às disputas teológicas que caracterizaram o período, provocaram uma bula de 1329 (quando ele já tinha falecido - Eckhart faleceu em 1328) em que o papa João XXII (segundo se diz, muito a contragosto) condenava 28 conceitos extraídos de suas obras (17 como heréticos e 11 como mal sonantes ou temerários). Antes que isso acontecesse, Eckhart já tinha apresentado, publicamente, a sua retratação por quaisquer impropriedades que o Vaticano viesse a encontrar em seus textos.
Muitos místicos seguiram e admiraram Mestre Eckhart, entre eles: Johannes Tauler, o beato Henrique Suso, santa Juliana de Norwich, o beato Ruysbroeck, Walter Hilton e o cardeal Nicolau de Cusa; mais tarde, foram influenciados por ele, santa Teresa de Ávila e são João da Cruz.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Faz barulho porque não está completo


Texto de Shundo Aoyama, extraído do livro " Para uma pessoa bonita"





Quando fui convidada para uma cerimônia do chá em um certo templo, ao esperar na ante-sala, notei pendurada no tokonoma(1) a pintura de uma cabaça com as palavras do Mestre Zen Takashina Rosen(2): “Faz barulho porque não está completo”.

Fiquei emudecida diante do humor que ali se escondia, e, como se houvesse levado um golpe dolorido de um bastão, sem perceber exclamei: “uh!”

Uma cabaça cheia até a boca não tem som quando sacudida, mas se houver um pouco de saquê(3) lá no fundo, fará barulho. Os seres humanos são como cabaças: a pessoa sábia, iluminada, é tranquila em qualquer circunstância, como se nada a perturbasse. Exaltar-se, justificar-se e se lamentar são provas de falta de conteúdo. As palavras verdadeiras do Mestre Zen nessa pintura nos tocam profundamente.

Certa vez, tive essa mesma compreensão ao descer um córrego em uma canoa. Na nascente, onde a água é rasa, a superfície é agitada e barulhenta. Perto da foz, onde o riacho se torna profundo, a superfície é calma e tranquila, fluindo silenciosamente.

Sempre que começo a me sentir inquieta, lembro-me das palavras do Mestre Takashina Rosen.



(1)Tokonoma – nicho construído nas casas japonesas onde se colocam objetos de arte, peças raras, caligrafias ou pinturas, bem como arranjos de flores, seguindo regras estéticas tradicionais, marcando cada estação do ano, festividade ou encontro.
(2). Takashina Rosen (1896-1968) – Mestre Zen Daikan Doko (título recebido do Imperador Japonês) é o Grande Monge Gyokudô Rôsen, que foi abade superior dos dois templos sedes da Escola Soto Zen no Japão e fundador dos primeiros templos da Escola Soto Zen na América do Sul (Brasil).
(3) Saquê – bebida alcoólica de arroz fermentado.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

O QUE A PRÁTICA É


Praticantes - Zen Brasília - foto de André Jushin


A prática é muito simples. Isso, entretanto, não significa que não irá transformar por completo nossa vida. Quero rever o que fazemos quando sentamos, ou praticamos o zazen. Se acreditarem que já estão além disso, bem, podem pensar que estão além.


Sentar é essencialmente um espaço simplificado. Nossa vida diária está em constante movimento: acontecem muitas coisas, muitas pessoas falam, muitos acontecimentos ocorrem. Em meio a tudo isso, é muito difícil sentir o que somos em nossa vida. Quando simplificamos a situação, quando deixamos os elementos externos de lado e nos retiramos do alcance do toque do telefone, da televisão, das pessoas que nos visitam, do cachorro que precisa passear, temos uma chance – que é, exatamente, a coisa mais valiosa que existe – de ficar de frente para nós mesmos. A meditação não está relacionada com algum estado e, sim, com seu praticante. Não diz respeito a alguma atividade, ou a consertar ou a conseguir algo. Refere-se a nós. Se não simplificamos a situação, a oportunidade de dar uma boa olhada em nós mesmos fica muito reduzida, porque aquilo que nos propomos a ver não somos nós e, sim, tudo o mais. Se algo dá errado, para o que olhamos? Olhamos para o que saiu errado e, em geral, para aqueles que a nosso ver foram os responsáveis. Ficamos o tempo todo olhando para fora, e não para nós.

Quando menciono que a meditação diz respeito a quem a pratica, não pretendo que nos comprometamos numa auto-análise. Não é isso também. Então fazemos o quê?

Depois de termos assumido nossa melhor postura (que deveria ser equilibrada, fácil), ficamos apenas sentados ali, praticamos zazen. O que significa ‘apenas sentados ali”? Essa é a mais exigente de todas as atividades. Por via de regra, na meditação, não fechamos os olhos. Neste momento, porém, gostaria que fechassem os olhos e ficassem apenas sentados. O que está acontecendo? Toda espécie de coisas. Uma fisgada mínima no ombro esquerdo; uma pressão no lado… Percebam o rosto por um momento. Sintam-no. Estará tenso em algum lugar? Em torno da boca, na testa? Vamos descer um pouco mais. Observem o pescoço, somente sintam-no. Agora, os ombros, as costas, o peito, a região abdominal, os braços, as coxas. Continuem sentindo tudo que encontrarem. Agora sintam a respiração entrando e saindo. Não tentem controlá-la, apenas senti-la. Nossa primeira reação é tentar segurar a respiração. Deixe que aconteça naturalmente. No alto do peito, no meio, na barriga, pode parecer tensa. Apenas sinta como está. Sintam tudo isso. Se um carro passa lá fora, ouçam-no. Se um avião passar, observem-no. Talvez ouçam o barulho cíclico do motor da geladeira. Que seja! E o que vocês têm de fazer, positivamente é tudo o que vocês têm de fazer: experimentar isso e apenas ficar com essa experiência. Agora podem abrir os olhos.

Se conseguirem ficar fazendo isso durante três- minutos, é um milagre. O normal é que, decorrido um minuto, começamos a pensar. Nosso interesse em apenas acompanhar a realidade (que é o que acabamos de fazer) é muito reduzido. ‘Você quer dizer que zazen é só isso?” Não gostamos dele. “Estamos em busca da iluminação, não?” Nosso interesse pela realidade é extremamente pequeno. Nós queremos pensar. Queremos nos afligir com todas as nossas preocupações. Queremos entender qual é o sentido da vida. Assim, antes de nos darmos conta, teremos esquecido por completo deste momento e teremos divagado em pensamentos sobre as coisas: o namorado, a namorada, o filho, o patrão, o medo permanente… e por aí afora! Nada há de vergonhoso nesse fantasiar, exceto que, quando estamos imersos nele, perdemos alguma outra coisa. Quando estamos perdidos em nossos pensamentos, quando estamos sonhando, o que perdemos? A realidade. Nossa vida nos escapou.

Isso é o que os seres humanos fazem. Não fazemos isso só uma parte do tempo: fazemos a maior parte do tempo. Por quê? Claro que vocês sabem a resposta. Fazemos porque estamos tentando nos proteger. Estamos tentando nos livrar de nossas dificuldades atuais, ou pelo menos entendê-las. Não há nada de errado em nossos pensamentos autocentrados, exceto que, quando nos identificamos com eles, nossa visão da realidade fica bloqueada. Assim, o que deveríamos fazer quando os pensamentos aparecem? Deveríamos rotulá-los. Coloquem rótulos específicos: não só “pensamento, pensamento” ou “preocupação, preocupação”, mas um rótulo específico. Por exemplo: “Estou pensando que ela é muito mandona”; “Estou pensando que ele é muito injusto comigo”; “Estou pensando que nunca faço as coisas certas”. Sejam específicos. Se os pensamentos estiverem vindo em avalanche, numa velocidade tão grande que vocês não sintam mais nada senão confusão, então simplesmente rotulem essa confusão nebulosa de “confusão”. Mas se insistirem em localizar pensamentos isolados, cedo ou tarde, eles virão.

Quando praticamos dessa maneira, passamos a nos conhecer, a saber como nossa vida funciona, o que estamos fazendo com ela. Se percebemos que determinados pensamentos reaparecem centenas de vezes, ficamos sabendo a nosso respeito algo que antes desconhecíamos. Talvez nosso pensamento incessante refira-se ao passado ou ao futuro. Algumas pessoas estão sempre pensando sobre acontecimentos, enquanto outras pensam em pessoas. Há quem pense sempre a respeito de si mesmo. Em algumas, os pensamentos são quase só julgamentos a respeito dos outros. Enquanto não os rotularmos durante quatro ou cinco anos, não nos conheceremos bem. Quando damos rótulos precisos e meticulosos a nossos pensamentos, o que acontece com eles? Eles começam a aquietar-se. Não é preciso que nos obriguemos a livrar-nos deles. Quando eles se acalmam, podemos retornar à experiência do corpo e da respiração, muitas vezes seguidas. Não há como deixar de enfatizar que não fazemos isso apenas duas ou três vezes; fazemos dez mil vezes. Com isso, nossa vida se transforma. Essa é uma descrição teórica do sentar. E muito simples. Não há nada de complicado nela.

Consideramos agora uma situação da vida cotidiana. Suponhamos que você trabalha mima companhia de aviação, e lhe contam que o contrato com o governo está terminando e é provável que não seja renovado. Você pensa com seus botões: “Vou perder meu emprego. Vou ficar sem rendimentos e tenho uma família para sustentar. E terrível!”. O que acontece então? Sua mente começa a remoer o problema sem parar. “O que acontecerá? O que faço?” A mente começa a ficar cada vez mais rápida com a preocupação.

Claro que não há nada de errado em planejar com antecedência. Temos de planejar. Porém, quando ficamos aborrecidos, não é porque apenas planejamos, mas porque ficamos obcecados. Viramos a situação do avesso de todos os jeitos. Se não soubermos o que significa fazer uma prática com nossos pensamentos de preocupação, o que ocorre em seguida? Os pensamentos produzem uma emoção e ficamos mais agitados ainda. Toda agitação emocional é causada pela mente. Se permitirmos que isso aconteça durante um certo tempo, acabaremos em muitos casos ficando doentes ou mentalmente deprimidos- Se a mente não se incumbir da situação com discernimento, o corpo o fará. Ele nos ajudará a sair dessa. E como se dissesse: “Se você não tomar conta da situação, creio que eu terei de fazê-lo”. Assim, produzimos nosso próximo resfriado, nossa alergia seguinte, nossa próxima úlcera, seja qual for nosso estilo. A mente que não está consciente de si produzirá enfermidades. Isto não é uma crítica, porém, não conheço quem nunca adoeça, inclusive eu. Quando o desejo de nos preocupar é forte, criamos dificuldades. Com uma prática regular, apenas o fazemos menos. Tudo aquilo de que não formos conscientes frutificará em nossa vida, de um jeito ou de outro.

Do ponto de vista humano, as coisas que dão errado em nossa vida são de dois tipos. Um são os fatos que acontecem fora de nós e o outro são os que acontecem dentro, como as doenças físicas. Ambas são a nossa pratica e trabalhamos com elas do mesmo modo. Rotulamos todos os pensamentos que acontecem à volta deles e os vivenciamos em nosso corpo. O processo é o próprio pensar.

Falar a esse respeito parece, de fato, fácil. Entretanto, fazê-lo é terrivelmente difícil. Não conheço ninguém que possa fazê-lo o tempo todo. Conheço algumas pessoas que conseguem uma boa parte do tempo. Mas, quando praticamos desta forma, tomando consciência de tudo que entra em nossa vida (interna e externa), ela começa a transformar-se. Aumentamos nossa força e nosso discernimento; às vezes, conseguimos inclusive viver num estado de iluminação, que só significa experimentar a vida como ela é. Não é nenhum mistério.

Se você é novato na prática, é importante saber que ficar apenas sentado na almofada durante quinze minutos já é uma vitória. E ótimo ficar sentado com essa compostura, somente ficar ali.

Se tivéssemos medo de ficar na água e não soubéssemos nadar, a primeira vitória seria apenas mergulhar. O próximo passo poderia ser molhar o rosto. Se fôssemos ótimos nadadores, o desafio poderia ser conseguir bater a mão na água numa determinada inclinação, a cada braçada. Isso significa que um é melhor do que o outro? Não. Ambos são perfeitos, cada qual em sua etapa do caminho. A prática, em qualquer estágio, é simplesmente ser quem somos a cada momento. Não é uma questão de sermos bons ou maus, melhores ou piores. As vezes, depois das palestras, as pessoas comentam: “Não entendi isso”. Isso também está perfeito. Nosso entendimento aumenta com o tempo, contudo, a qualquer momento, somos perfeitos em ser do jeito que somos.

Começamos a aprender que só existe uma coisa na vida em que podemos confiar. Qual é? Podemos dizer: “Confio em meu companheiro”. Podemos amar nosso marido, nossa esposa; mas não podemos nunca confiar cegamente neles porque uma outra pessoa (assim como nós) é sempre não confiável até certo ponto. Não há uma pessoa na face da Terra em quem possamos confiar por completo, embora, sem dúvida, possamos amá-la e desfrutar sua companhia. Em que, então, podemos confiar? Se não é em uma pessoa, em quê? Em que podemos confiar na vida?, perguntei a alguém que me respondeu: “Em mim”. Você pode confiar em si mesmo? A autoconfiança é uma boa coisa, porém é inevitavelmente limitada.

Existe uma coisa na vida em que sempre podemos confiar: na vida tal como é. Vamos falar em termos mais concretos. Imagine que existe uma coisa que eu quero muito: talvez casar com uma certa pessoa, ou fazer um curso de especialização, ou ter um filho saudável e feliz. No entanto, a vida como é poderia ser exatamente o inverso do que eu desejo. Não sabemos se iremos ou não casar com aquele alguém. Quem sabe, se casarmos, aquela pessoa ideal morra amanhã. Pode ser que consigamos ser especialistas ou não. É provável que sim, mas não podemos contar com isso. Não podemos contar com coisa alguma. A vida será sempre do jeito que é. Então, por que não conseguimos confiar nesse fato? O que é tão difícil a esse respeito? Por que estamos sempre incomodados? Suponha que sua casa tenha acabado de ser destruída por um terremoto e você está quase perdendo um braço e todas as suas economias. Será que dá para confiar na vida tal qual ela se apresenta? Você consegue ser assim?

Confiar que as coisas são como são é o segredo da vida. Porém, não queremos saber de nada disso. Posso confiar absolutamente que, no ano que vem, minha vida mudará, estará diferente, e, no entanto, será sempre do que jeito que é. Se eu tiver um ataque cardíaco amanhã, posso confiar que, porque eu o tive, eu o tenho. Posso me apoiar na vida como ela é.

Quando fazemos um investimento pessoal em nossos pensamentos, criamos o “eu” (como diria Krishnamurti), então nossa vida começa a não funcionar. Eis por que rotulamos os pensamentos, desfazendo o investimento. Depois de termos ficado sentados por tempo suficiente, podemos notar nossos pensamentos apenas como input sensorial. Podemos nos ver atravessando os estágios preliminares a este: primeiro sentimos que nossos pensamentos são reais, e a partir deles criamos as emoções autocentradas e, a partir destas, os obstáculos que nos impedem de ver a vida como ela é, porque, se estamos contidos pelas emoções autocentradas, não conseguimos enxergar as pessoas e as situações com clareza. Um pensamento em si é só input sensorial, um fragmento de energia. Entretanto, tememos ver os pensamentos tais como são.

Quando rotulamos o pensamento, retrocedemos e nos desapegamos da identificação. Há uma enorme diferença entre dizer: “Ela é impossível” e “Estou pensando que ela é impossível”. Se persistirmos na prática de rotular qualquer pensamento, o revestimento emocional começa a dissolver-se e ficamos, enfim, com o fragmento impessoal de energia, ao qual não precisamos ficar apegados. Se, porém, acreditamos que nossos pensamentos são reais, nossa conduta se fundamentará neles. Se agirmos a partir deles, nossa vida ficará uma confusão. Mais uma vez, a prática é o trabalho com este processo até que o tenhamos impregnado em nossos ossos. A prática não se refere a entender com a mente. Ela tem de ser nossa carne, nossos ossos, nós mesmos. Claro que temos de ter pensamentos orientados para a vida, como seguir uma receita, consertar um equipamento, planejar as férias. Mas não necessitamos dessa atividade emocionalmente autocentrada a que chamamos pensar. Não é de fato pensar; é uma aberração do pensar.

O zen refere-se a uma vida ativa, envolvida. Quando conhecemos bem nossas mentes e as emoções que nosso pensamento cria, temos a possibilidade de ver melhor o que é a nossa vida e o que precisa ser feito; em geral, é a próxima coisa que temos logo à frente. O zen tem que ver com uma vida de ações, não com um fazer nada passivo. No entanto, as ações têm de estar baseadas na realidade. Quando se baseiam em falsos sistemas de pensamento (fundamentados em nosso condicionamento), têm alicerces precários. Depois de enxergarmos com clareza os sistemas de pensamento, seremos capazes de ver o que precisa ser feito.

O que estamos fazendo não é nossa reprogramação; é nossa libertação de todos os programas, notando que são vazios, sem realidade. A reprogramação é só saltar de um caldeirão para outro. Pode ser que tenhamos aquilo que pensamos ser uma melhor programação; mas o propósito do sentar é não ser conduzido por nenhum programa. Imaginemos que há o programa chamado “Não tenho autoconfiança”. Suponhamos que decidimos reprogramá-lo para “Tenho autoconfiança”. Nenhum dos dois conseguirá se sair muito bem frente às pressões da vida, porque envolvem um “eu”. Este “eu” é uma invenção muito frágil – aliás, irreal – e é com facilidade enganado. Na realidade, nunca houve um “eu”. O que importa é enxergar que é vazio, uma ilusão, que é diferente de dissolvê-lo. Quando falo que é vazio, quero dizer que não tem uma realidade básica; é só uma criação de pensamentos autocentrados.

Praticar o zen nunca é tão fácil quanto falar sobre ele. Até mesmo os estudantes que têm um certo entendimento do que estão fazendo, às vezes, costumam se afastar da prática básica. Apesar disso, quando sentamos bem, tudo o mais se incumbe de si mesmo. Por essa razão, se estamos praticando o sentar há cinco ou vinte anos, ou estamos apenas no começo, é importante sentar com um grande e meticuloso cuidado.

Texto de Charlote Joko Beck - extraído do livro "Sempre Zen"

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Monges são ótimos amigos




O Buda Shakyamuni(1) dizia: “ter ótimos amigos e estar em boa companhia não é metade do caminho, não é parte do caminho, é o próprio caminho”. Ele enfatizava assim a importância de ter bons amigos.

O Mestre Dôgen também escreveu no Shôbôgenzô Zuimonki(2): “Mesmo os estudantes de Zen que não tenham muita disposição em buscar o Caminho, apenas por estarem próximos a bons praticantes, acabam por criar bons relacionamentos e enfim podem ver e ouvir como eles. Os bons amigos estão conosco, não importa quão sofrida e solitária seja a prática”.

Essas palavras mostram a docilidade, a sabedoria e a compaixão de Mestre Dôgen, que se colocava sempre no plano das pessoas comuns, mesmo daqueles de fé mais fraca.

O caractere “so” em japonês deriva do sânscrito “sangha”(3) e quer dizer “grupo harmonioso”. Uma pessoa apenas não é chamada de “so”, não pode formar uma “san gha”. Buda Skakyamuni, conhecendo a fraqueza humana, não aconselhava a prática solitária.

Sozinhos não conseguimos nos empenhar verdadeiramente, nem mesmo por apenas uma hora, em zazen. Se, por outro lado, o fizermos com outras pessoas, podemos praticar o zazen por três dias, ou mesmo durante um retiro de uma semana, ou até dedicar toda nossa existência à vida monástica. Pode parecer que o zazen é uma prática solitária, mas isto não é verdade. Não podemos ter sucesso sozinhos. Como dizia o Mestre Dôgen: “A prática é a força do grupo”. A perseverança de todo o grupo sustenta a prática de cada um. E por isso que dizemos que “os monges são ótimos amigos”.

Reverenciando aqueles que despertaram para o verdadeiro caminho, seguindo os ensinamentos de Buda, mante-mos a prática constante em nosso dia a dia, sustentados por nossos amigos monges que compartilham de nossas aspirações. Quando doentes, sou doente. Quando pobres, sou pobre. Bem no meio da doença e da pobreza, ou de qualquer situação que surja, confiamos nos Três Tesouros: Buda, o ser iluminado; Darma, seus ensinamentos; e Sangha, a comunidade harmoniosa de praticantes. São os Três Tesouros que nos permitem praticar. Existe alguma felicidade maior do que esta?


(Texto de Shundo Aoyama, extraído do livro "Para uma pessoa bonita")


1Buda Sakyamuni – O Buda histórico, fundador do Budismo, cujo nome original era Príncipe Gautama Sidharta. Shakya se refere ao nome do clã a que ele pertencia e muni significa sábio.
2Shôbôgenzô Zuimonki – literalmente: O olho – tesouro do Darma correto, obra de Eihei Dôgen. ele pretendia escrever cem capítulos, porém morreu antes de terminar. Há uma versão oficial com 95 capítulos. O olho – tesouro da lei verdadeira e A suprema mente de nirvana são considerados os ensinamentos de Buda transmitidos a seu discípulo Makakashô..
3Sangha – termo sânscrito que indica uma comunidade de praticantes ou monges.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

3 pontos para uma vida espiritual autêntica, segundo o zen de James Ford

Hirō Isono (1945 - 2013)


Quando você segue uma autoridade, sua mente se torna infantil, estreita, mecânica, sem nenhuma substância por trás”, diz o filósofo indiano Jiddu Krishnamurti, conhecido por seus ensinamentos pela emancipação e libertação do ser humano de sua própria escravidão e imaturidade mental. Se acreditarmos nessa frase dele, poderíamos dizer que estaríamos seguindo uma autoridade, mas, também, quem sabe, em direção a nos emancipar dela. O que seria um grande ponto para termos uma vida espiritual ou uma prática espiritual autêntica: seguir no caminho por nós mesmos. Pensando, percebendo e buscando por nós mesmos.

O reverendo zen James Ford tem 3 dicas nessa direção. As três seguem traduzidas mais abaixo, como guias gerais que podem ajudar a voltarmos a nós mesmos (ainda que uma dica precise de outra pessoa).

Ford considera esses 3 pontos abaixo fundamentais para uma vida espiritual autêntica. O ponto de Krishnamurti poderia facilmente ser um quarto nesta lista. E, logo depois, eu mesmo adiciono um quinto, para sair um pouco da pura papagaiação. Ei-los:

1) Você precisa passar tempo calado. Se você permanece todo o tempo no barulho, é difícil prestar atenção, dificil perceber as lições e a lição.

2) Você precisa de regularidade. Fazer uma vez pode abrir seu coração e seus olhos. Acontece. Mas a maioria de nós precisa voltar e praticar e praticar e praticar.

3) Você precisa de alguém para lhe supervisionar. O cérebro é um grande mentiroso. Todos nós nos contamos todo tipo de histórias sobre o que precisamos e merecemos, e apenas algumas delas são verdadeiras. E também, ao longo do caminho espiritual, temos várias experiências. A maioria com limitado valor, ou mesmo sem valor nenhum. Alguém que trilhou o caminho antes de você, alguém em que você confie, e que esteja sempre disposto a dizer a verdadeira nua e crua, tem peso de ouro.

Ford diz que se fizermos isso, nossa “prática espiritual não será somente sobre reduzir a pressão sanguínea, será sobre chegar às portas do paraíso, e entrar”.

O que me leva a querer adicionar, como falei, este quinto ponto: precisamos de uma motivação real de vida ou morte. Sem isso, não chegaremos a lugar nenhum. Será tudo superficial, egoico e sem profundidade, o que pode não ter verdade nenhuma, e portanto não ter nada de espiritualidade genuína.

terça-feira, 30 de julho de 2019

O NOBRE

Aquele que é inofensivo, que não fere nem causa ou incentiva a morte de qualquer ser, fraco ou forte, a este eu chamo de nobre.

Aquele que é amável entre os hostis, suave entre os agressivos e livre de ambições entre os que cobiçam, a este eu chamo de nobre.

Aquele cujas palavras são gentis, instrutivas, verdadeiras e inofensivas, a este eu chamo de nobre.

Aquele incapaz de tomar aquilo que não lhe tenha sido dado pelo próprio dono, seja grande ou pequeno, largo ou curto, bom ou ruim, a este eu chamo de nobre.

Aquele que mantem sob controle seu corpo, sua fala e sua mente, a tal pessoa eu chamo de nobre.

(O Dhammapada - O Nobre Caminho do Darma do Buda)

TAO - A SABEDORIA DO SILÊNCIO