quarta-feira, 22 de outubro de 2014



foto: Mauro Nogueira


O homem deve apressar-se em fazer o bem e proteger sua mente do mal. Pois aquele que deixa o bem para mais tarde, convida o mal a visitá-lo mais cedo.

Se um homem cometer algum mal, que não repita a má ação, pois ela contaminará o seu coração. A acumulação de má conduta conduz à miséria humana.

Se um homem fizer o bem, que ele repita a boa ação, pois ela preencherá o seu coração. A acumulação de boa conduta conduz à felicidade humana.

(O Dhammapada - O Nobre Caminho do Darma do Buda)

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Respeito e Compaixão

foto: Sebastião Salgado

Se ainda temos de apontar para alguns grupos que devem ser incluídos, é porque estamos distantes de um coração bondoso


Respeito e Compaixão pelos homossexuais. Respeito e Compaixão pelas mulheres. Respeito e Compaixão pelos idosos. Respeito e Compaixão pelas crianças.

Respeito e Compaixão pelos seres humanos.

Respeito e Compaixão pela vida na Terra.

Respeitar é mais do que tolerar.

Compaixão é identificação e cuidado terno.

Quando minha mão esquerda se machuca, minha mão direita imediatamente a vai socorrer. Sem esperar nada em troca.

Porque somos um só corpo e uma só vida.

Quando iremos todos despertar?

O vírus ebola nos assusta e atormenta.

Em Dallas, o apartamento da enfermeira que tratou o paciente com ebola e se contaminou foi totalmente higienizado.

Fiquei me lembrando da hanseníase.

Havia no Japão uma ilha; chamava-se Ilha do Amor. Para lá eram levados os pacientes com hanseníase. Iam de barco. Não havia pontes, e na ilha não havia barcos. Sem retorno. Suas antigas casas e seus pertences eram queimados. Seus nomes, apagados das famílias.

Na Europa mataram o cão de uma pessoa contaminada? O cão da enfermeira de Dallas está sob observação.

Precisamos salvar a Humanidade do vírus que nos pode destruir.

Surgiu em 1977 pela primeira vez.

Até hoje sem vacina?

Mas agora, que atinge os continentes privilegiados, a vacina surge para poucos.

Alguma coisa conhecida?

No surto da Aids, houve um governo que se colocou de frente contra grandes indústrias farmacêuticas, e os medicamentos são hoje gratuitos.

Farmácia popular — que bonito.

Mas ninguém sabe, ninguém viu.

O Sol se põe dourado, mas nós não douramos as pílulas.

Ver a realidade assim como é. Sem manipular a mente de ninguém — nem mesmo a sua.

Sem ser manipulada por ninguém — a nossa mente sagrada.

Para isso é preciso despertar. Despertar é ver em profundidade. É compreender as manobras dos manobristas e se desvencilhar da visão tacanha, corrupta. Corrupta de coração rompido, de se sentir separada do todo. Em quantas corrupções você esteve envolvido hoje?

Não falar dos erros e faltas alheios é um dos Preceitos de Buda. Uma sugestão para o Nirvana, a paz sábia.

Então, vamos falar do quê?

Será que estamos o tempo todo falando mal uns dos outros? Procurando nossos eleitores? Gritando por nossos votos?

Direitos e deveres.

Dever de se perceber interconectado de forma inseparável.

Dever de desenvolver a capacidade do respeito e da compaixão por todos os seres, por cada partícula, cada onda.

Se ainda temos de apontar para alguns grupos que devem ser respeitados e incluídos é porque estamos muito, muito distantes do coração bondoso, terno, acolhedor, humilde da compaixão ilimitada.

Nós, filhos e filhas da Terra e do Sol, habitantes da Via Láctea, podemos. Podemos e devemos apreciar a vida.

Estamos sempre chegando, chegando, partindo, indo, voltando e indo novamente.

Incessante movimento — que haja respeito e compaixão no movimento quieto do nada-tudo.

Somos o todo manifesto.


(Monja Coen  - Jornal O Globo)

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

sábado, 11 de outubro de 2014

A dança das Abelhas

Gatinha Perséfone e seu brinquedo - foto de Sheylane Brandão


Somos aquilo que sentimos e percebemos. Se estamos zangados, somos a raiva. Se estamos apaixonados, somos o amor. Se contemplamos um pico nevado, somos a montanha. Ao assistir a um programa de televisão de baixa qualidade, somos o programa de televisão. Enquanto sonhamos, somos o sonho. Podemos ser qualquer coisa que quisermos, mesmo sem uma varinha mágica.


Extraído do livro "O sol meu coração" de Thich Nhat Hanh

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Comprometimento

Foto: Luis Julgmann Girafa


Budas só podem entender suas vidas levando sua prática
com um profundo sentimento de compromisso.

Escrevi essa frase em dois segundos. É tão fácil escrever,
ler, compartilhar, mas o que significa realmente? Compromisso
como budistas? Como se compromete um Buda? A resposta é
tão simples quanto complexa: um Buda se compromete com
tudo, com todo o seu corpo, com toda a sua mente, em cada
momento de sua vida. Viram? Achavam que ia ser fácil, que
compromisso é só ler umas frases bonitas, repeti-las, copiá-las?
Decorar frases que achamos interessantes? E o mais comum
dos nossos compromissos: falar e falar e falar até o cansaço de
quão comprometidos estamos com… nossas ilusões?

Nos comprometemos, às vezes fazendo muito barulho, com
o que achamos que são as grandes causas. E esquecemos que
não há nada grande nem pequeno. O comprometimento está
no dia a dia, nas coisas “pequenas”, cotidianas, ordinárias, essas
que ninguém vê ou que ninguém quer ver.

A vida, o nosso maior compromisso, está além das discriminações.
A vida, essa energia maravilhosa, que só por breves momentos
estamos compartilhando, usufruindo, não escolhe. Não. A vida
é intensa, imensa, maravilhosa, com todos, com tudo.

E por que estou falando tanto em vida? O que tem a ver a
vida com o título do artigo?  Para mim, monja
zen-budista, a palavra, a intenção, o pensamento de compromisso
devem estar presentes em cada momento de nossa vida.
Não é moda, não é política, não é empolgação. É muito mais
simples e, ao mesmo tempo, muito mais complexo que qualquer
teoria já escrita.

O compromisso para nós, budistas, deve estar presente
em cada uma de nossas palavras, pensamentos,
atitudes e até em nossos silêncios. O comprometimento
budista não é apenas dito. É feito, sem barulho, com
intensidade, com a firme convicção de que essa ação é
a coisa mais importante na nossa vida. E é mesmo.

Vocês acham que estar comprometido é aparecer
na TV oferecendo mundos e fundos para mudar
tudo? Pensamos que isso, sim, é o importante. Coisas
grandiosas, mudar o mundo a partir de fora… não
funciona. Comprometer-se da boca para fora – sem
a mudança interior, sem a mudança no olhar, sem
a mudança no pensar – é fácil e não leva a lugar
nenhum. Compromisso, comprometimento começa
num lugar tão óbvio quanto difícil de atingir: em nós
mesmos. Esqueça de se comprometer com o mundo,
esqueça de querer mudar o mundo, esqueça tudo.
Mantenha apenas o seu mais firme, íntimo, urgente
propósito de se comprometer com você mesmo. Isso
significa o quê? Estamos em um templo budista, você
está lendo um artigo escrito em um jornal budista,
então com o que se compromete? Com a nossa prática,
que é sutil, cotidiana. Com a nossa prática budista,
na qual não existem milagres, só existe este pequeno
momento, nada mais. Comprometimento com assistir,
com escutar, com estar presente, não só fisicamente,
mas com toda a sua mente, com todo o seu ser
em qualquer lugar onde estiver. Não esqueça que o
budismo é uma religião engajada com a vida, é vida.
Não há um momento especial para se comprometer, para estar
presente. Nosso comprometimento é com o despertar para a
vida. Para que vamos despertar? Para entender que nós somos
essa vida e que temos muito pouco tempo para poder estar
“comprometidos” com ela.

Comprometimento é entender que tudo tem a ver conosco.
Não posso ser inocente, não posso dizer: isso não tem nada
a ver comigo. É ser monitor, por exemplo, e não chegar cinco
minutos antes, só para sentar na cadeira da entrada, com o
nosso melhor sorriso (ainda bem), receber as pessoas, falar,
falar e falar e depois cair fora.

Isso não é comprometimento. Nós preparamos o nosso
lugar de prática para acolher as pessoas: olhando os banheiros,
limpando, varrendo, arrumando. Nos comprometemos com
cada momento do processo do qual estamos participando. Por
quê? Porque somos esse processo. E nos comprometemos a
ser, a estar presentes em cada instante. Falar menos, ser mais.
Entender que, de tanto querer entender, nos anulamos. De
tanto pensar, não somos. De tanto desejar, não fazemos.

Com o coração alegre, assumamos o compromisso de ser o
que sempre fomos: Budas. Nesse estado Buda, perfeito, onde
nada sobra, nada falta, vamos fluir com a vida, sem um eu, sem
compromisso, sem nada.


(Monja Zentchu Sensei)

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Dualidade



Rio Tapajós/PA - foto Alice Kohler


Vivemos num tempo em que meditação deixou de ser somente uma prática individual. Nós temos que praticar como uma comunidade, como uma nação, como um planeta. Se realmente queremos que a paz seja possível de acontecer, então devemos tentar olhar para a realidade de forma a ver que não existe separação. É muito importante nos treinarmos a olhar de uma forma não dualista. Sabemos, pela nossa própria experiência, que a outra pessoa não está feliz, é muito difícil para nós sermos felizes. A outra pessoa pode ser sua filha, seu parceiro, amigo, mãe, seu filho, seu pai ou seu vizinho. A outra pessoa pode ser da comunidade cristã, da comunidade judaica, da comunidade budista ou da comunidade islâmica. Porque sabemos que segurança e paz não são questões individuais, iremos agir em prol do bem comum. Qualquer coisa que fizermos para ajudar nossos amigos, nossos vizinhos e outros países, para que eles se tornem mais seguros e mais respeitados, irá nos beneficiar também. De outra forma, somos capturados por nossa ignorância. A nossa visão dualista nos faz agir de uma forma que continuará nos destruindo e destruindo o mundo. 

(Thich Nhat Hanh)

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Pensamento e Amor

Foto: Lou Gaioto




O pensamento, com seu conteúdo emocional e sensitivo, não é
amor. O pensamento nega, invariavelmente, o amor. O pensamento funda-se na memória, e o amor não é memória. Quando pensamos a respeito de alguém que amamos, este pensamento não é amor.


Podemos ter a lembrança dos hábitos, das maneiras, das idiossincrasias de um amigo, e pensar nos incidentes agradáveis ou desagradáveis ocorridos nas nossas relações com ele, mas os quadros evocados pelo pensamento não representa o amor. O pensamento, por sua própria natureza, é separativo. A noção de tempo e espaço, de separação e sofrimento nasce do processo do pensamento, e só quando este cessa, pode existir o amor.


O pensamento gera inevitavelmente o sentimento de posse, aquela
ânsia de posse que, consciente ou inconscientemente, nutre o ciúme. Onde está o ciúme, naturalmente não pode estar o amor; e, no entanto, pela maioria das pessoas, o ciúme é considerado um sinal de amor. O ciúme é resultado do pensamento, uma reação do
conteúdo emocional do pensamento. Quando vemos contrariado o
sentimento de possuir ou de ser possuídos fica-nos um vazio de tal
ordem que a inveja vem preencher o lugar do amor. E porque o
pensamento representa o papel do amor que surgem todas as complicações e tristezas da vida.


Se não pensamos em alguém, direis que não amamos. Mas, é
amor pensarmos na pessoa? Se nunca pensásseis num amigo a quem julgais amar, isso vos causaria certo horror, não e verdade? Se não pensásseis num amigo falecido, vos consideraríeis desleal, desamoroso etc. Qualificaríeis tal estado de insensível, indiferente
etc.; e trataríeis por isso de pensar em tal pessoa, guardando retratos
dela, imagens feitas pela mão e pela mente; encher, porem, assim, o
coração com as coisas da mente significa não deixar espaço para
o amor. Quando estais na companhia de um amigo, não pensais nele;só na sua ausência, o pensamento começa a recriar cenas e ocorrências mortas. Esta ressurreição do passado é chamada amor. Por conseguinte, para a maioria de nós, o amor é morte, negação da vida;


Vivemos-nos com o passado, com os mortos, e por isso estamos também mortos, embora chamemos a isso amor.
O processo do pensamento nega sempre o amor. O pensamento
é que tem complicações emocionais, e não o amor. O pensamento é o maior obstáculo ao amor. O pensamento cria uma divisão entre
o que é e o que deveria ser, e nesta divisão se baseia a nossa moral;


Entretanto, nem o homem moral nem o imoral conhecem o amor. Esta estrutura moral, criada pela mente para manter coesas as relações sociais, não é amor, mas um processo de contínuo enrijecer, qual o do cimento. O pensamento não conduz ao amor, não pode cultivar o amor; pois o amor não é cultivável como planta de jardim. O próprio desejo de cultivar o amor é ação do pensamento.


Se ficardes vigilante, por pouco que seja, vereis o papel importante
Que o pensamento representa na vida. O pensamento tem,
naturalmente, seu devido lugar, mas não está sob nenhum aspecto
relacionado com o amor. O que se relaciona com o pensamento
pode ser compreendido pelo pensamento, mas o que se relaciona com o pensamento não pode ser alcançado pela mente. Perguntareis: Que é então o amor? O amor é um estado de ser, em que não existe pensamento; a própria definição do amor e um processo do pensamento. E, por isso mesmo, não é amor.


Temos de compreender o próprio pensamento, e não procurar
aprisionar o amor com o pensamento. A negação do pensamento
não gera o amor. São se está libertado do pensamento quando se
compreendeu plenamente o seu significado profundo; e, para tanto,
o essencial é o autoconhecimento profundo, e não a asserções vãs e
superficiais. A meditação e não a repetição, o percebimento e não
as definições é que revelam as atividades do pensamento. Se
não estamos vigilantes e tomando conhecimento das atividades do
pensamento, o amor não pode existir.


(J. K R I S H N A M U R T I - COMENTÁRIOS SOBRE O VIVER)