sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Foto: Luis Julgmann Girafa


Buda disse que construir um caráter é como construir uma represa. Deve-se ter muito cuidado ao erguer o muro de contenção. Se for feito precipitadamente, a água vazará. Levante o muro com cautela e terá uma boa barragem para sua água.

(Shunryu Suzuki)

quarta-feira, 22 de outubro de 2014



foto: Mauro Nogueira


O homem deve apressar-se em fazer o bem e proteger sua mente do mal. Pois aquele que deixa o bem para mais tarde, convida o mal a visitá-lo mais cedo.

Se um homem cometer algum mal, que não repita a má ação, pois ela contaminará o seu coração. A acumulação de má conduta conduz à miséria humana.

Se um homem fizer o bem, que ele repita a boa ação, pois ela preencherá o seu coração. A acumulação de boa conduta conduz à felicidade humana.

(O Dhammapada - O Nobre Caminho do Darma do Buda)

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Respeito e Compaixão

foto: Sebastião Salgado

Se ainda temos de apontar para alguns grupos que devem ser incluídos, é porque estamos distantes de um coração bondoso


Respeito e Compaixão pelos homossexuais. Respeito e Compaixão pelas mulheres. Respeito e Compaixão pelos idosos. Respeito e Compaixão pelas crianças.

Respeito e Compaixão pelos seres humanos.

Respeito e Compaixão pela vida na Terra.

Respeitar é mais do que tolerar.

Compaixão é identificação e cuidado terno.

Quando minha mão esquerda se machuca, minha mão direita imediatamente a vai socorrer. Sem esperar nada em troca.

Porque somos um só corpo e uma só vida.

Quando iremos todos despertar?

O vírus ebola nos assusta e atormenta.

Em Dallas, o apartamento da enfermeira que tratou o paciente com ebola e se contaminou foi totalmente higienizado.

Fiquei me lembrando da hanseníase.

Havia no Japão uma ilha; chamava-se Ilha do Amor. Para lá eram levados os pacientes com hanseníase. Iam de barco. Não havia pontes, e na ilha não havia barcos. Sem retorno. Suas antigas casas e seus pertences eram queimados. Seus nomes, apagados das famílias.

Na Europa mataram o cão de uma pessoa contaminada? O cão da enfermeira de Dallas está sob observação.

Precisamos salvar a Humanidade do vírus que nos pode destruir.

Surgiu em 1977 pela primeira vez.

Até hoje sem vacina?

Mas agora, que atinge os continentes privilegiados, a vacina surge para poucos.

Alguma coisa conhecida?

No surto da Aids, houve um governo que se colocou de frente contra grandes indústrias farmacêuticas, e os medicamentos são hoje gratuitos.

Farmácia popular — que bonito.

Mas ninguém sabe, ninguém viu.

O Sol se põe dourado, mas nós não douramos as pílulas.

Ver a realidade assim como é. Sem manipular a mente de ninguém — nem mesmo a sua.

Sem ser manipulada por ninguém — a nossa mente sagrada.

Para isso é preciso despertar. Despertar é ver em profundidade. É compreender as manobras dos manobristas e se desvencilhar da visão tacanha, corrupta. Corrupta de coração rompido, de se sentir separada do todo. Em quantas corrupções você esteve envolvido hoje?

Não falar dos erros e faltas alheios é um dos Preceitos de Buda. Uma sugestão para o Nirvana, a paz sábia.

Então, vamos falar do quê?

Será que estamos o tempo todo falando mal uns dos outros? Procurando nossos eleitores? Gritando por nossos votos?

Direitos e deveres.

Dever de se perceber interconectado de forma inseparável.

Dever de desenvolver a capacidade do respeito e da compaixão por todos os seres, por cada partícula, cada onda.

Se ainda temos de apontar para alguns grupos que devem ser respeitados e incluídos é porque estamos muito, muito distantes do coração bondoso, terno, acolhedor, humilde da compaixão ilimitada.

Nós, filhos e filhas da Terra e do Sol, habitantes da Via Láctea, podemos. Podemos e devemos apreciar a vida.

Estamos sempre chegando, chegando, partindo, indo, voltando e indo novamente.

Incessante movimento — que haja respeito e compaixão no movimento quieto do nada-tudo.

Somos o todo manifesto.


(Monja Coen  - Jornal O Globo)

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

sábado, 11 de outubro de 2014

A dança das Abelhas

Gatinha Perséfone e seu brinquedo - foto de Sheylane Brandão


Somos aquilo que sentimos e percebemos. Se estamos zangados, somos a raiva. Se estamos apaixonados, somos o amor. Se contemplamos um pico nevado, somos a montanha. Ao assistir a um programa de televisão de baixa qualidade, somos o programa de televisão. Enquanto sonhamos, somos o sonho. Podemos ser qualquer coisa que quisermos, mesmo sem uma varinha mágica.


Extraído do livro "O sol meu coração" de Thich Nhat Hanh

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Comprometimento

Foto: Luis Julgmann Girafa


Budas só podem entender suas vidas levando sua prática
com um profundo sentimento de compromisso.

Escrevi essa frase em dois segundos. É tão fácil escrever,
ler, compartilhar, mas o que significa realmente? Compromisso
como budistas? Como se compromete um Buda? A resposta é
tão simples quanto complexa: um Buda se compromete com
tudo, com todo o seu corpo, com toda a sua mente, em cada
momento de sua vida. Viram? Achavam que ia ser fácil, que
compromisso é só ler umas frases bonitas, repeti-las, copiá-las?
Decorar frases que achamos interessantes? E o mais comum
dos nossos compromissos: falar e falar e falar até o cansaço de
quão comprometidos estamos com… nossas ilusões?

Nos comprometemos, às vezes fazendo muito barulho, com
o que achamos que são as grandes causas. E esquecemos que
não há nada grande nem pequeno. O comprometimento está
no dia a dia, nas coisas “pequenas”, cotidianas, ordinárias, essas
que ninguém vê ou que ninguém quer ver.

A vida, o nosso maior compromisso, está além das discriminações.
A vida, essa energia maravilhosa, que só por breves momentos
estamos compartilhando, usufruindo, não escolhe. Não. A vida
é intensa, imensa, maravilhosa, com todos, com tudo.

E por que estou falando tanto em vida? O que tem a ver a
vida com o título do artigo?  Para mim, monja
zen-budista, a palavra, a intenção, o pensamento de compromisso
devem estar presentes em cada momento de nossa vida.
Não é moda, não é política, não é empolgação. É muito mais
simples e, ao mesmo tempo, muito mais complexo que qualquer
teoria já escrita.

O compromisso para nós, budistas, deve estar presente
em cada uma de nossas palavras, pensamentos,
atitudes e até em nossos silêncios. O comprometimento
budista não é apenas dito. É feito, sem barulho, com
intensidade, com a firme convicção de que essa ação é
a coisa mais importante na nossa vida. E é mesmo.

Vocês acham que estar comprometido é aparecer
na TV oferecendo mundos e fundos para mudar
tudo? Pensamos que isso, sim, é o importante. Coisas
grandiosas, mudar o mundo a partir de fora… não
funciona. Comprometer-se da boca para fora – sem
a mudança interior, sem a mudança no olhar, sem
a mudança no pensar – é fácil e não leva a lugar
nenhum. Compromisso, comprometimento começa
num lugar tão óbvio quanto difícil de atingir: em nós
mesmos. Esqueça de se comprometer com o mundo,
esqueça de querer mudar o mundo, esqueça tudo.
Mantenha apenas o seu mais firme, íntimo, urgente
propósito de se comprometer com você mesmo. Isso
significa o quê? Estamos em um templo budista, você
está lendo um artigo escrito em um jornal budista,
então com o que se compromete? Com a nossa prática,
que é sutil, cotidiana. Com a nossa prática budista,
na qual não existem milagres, só existe este pequeno
momento, nada mais. Comprometimento com assistir,
com escutar, com estar presente, não só fisicamente,
mas com toda a sua mente, com todo o seu ser
em qualquer lugar onde estiver. Não esqueça que o
budismo é uma religião engajada com a vida, é vida.
Não há um momento especial para se comprometer, para estar
presente. Nosso comprometimento é com o despertar para a
vida. Para que vamos despertar? Para entender que nós somos
essa vida e que temos muito pouco tempo para poder estar
“comprometidos” com ela.

Comprometimento é entender que tudo tem a ver conosco.
Não posso ser inocente, não posso dizer: isso não tem nada
a ver comigo. É ser monitor, por exemplo, e não chegar cinco
minutos antes, só para sentar na cadeira da entrada, com o
nosso melhor sorriso (ainda bem), receber as pessoas, falar,
falar e falar e depois cair fora.

Isso não é comprometimento. Nós preparamos o nosso
lugar de prática para acolher as pessoas: olhando os banheiros,
limpando, varrendo, arrumando. Nos comprometemos com
cada momento do processo do qual estamos participando. Por
quê? Porque somos esse processo. E nos comprometemos a
ser, a estar presentes em cada instante. Falar menos, ser mais.
Entender que, de tanto querer entender, nos anulamos. De
tanto pensar, não somos. De tanto desejar, não fazemos.

Com o coração alegre, assumamos o compromisso de ser o
que sempre fomos: Budas. Nesse estado Buda, perfeito, onde
nada sobra, nada falta, vamos fluir com a vida, sem um eu, sem
compromisso, sem nada.


(Monja Zentchu Sensei)