sábado, 12 de julho de 2014

Ação Pacífica - Coração Aberto





"A mensagem do Budismo é muito clara - toda violência é injustiça. A escalada da raiva e da violência somente conduz à mais raiva e violência, e no final, à total destruição. Violência e ódio podem apenas ser neutralizados pela compaixão e bondade amorosa. Quando você se encontrar num situação difícil, quando estiver para cair em uma vala de fogo, se houver como praticar mente atenta compassiva e invocar a corporificação da compaixão, Avalokitesvara, então, você será capaz de parar, acalmar-se e olhar mais profunda e claramente para a situação. A raiva , o desejo de retaliação e vingança enfraquecerão e você será capaz de encontrar a melhor maneira de responder. Compreendendo que intersomos e que qualquer violência feita ao outro é, em última instância, uma violência perpetrada contra nós mesmos, praticamos a mente atenta compassiva, de forma a não causar mais sofrimento para nós mesmos, para nosso próprio povo e àqueles, assim denominados nossos oponentes."

Thich Nhat Hanh

quinta-feira, 10 de julho de 2014

foto: João Antônio - Série Meu Jardim

Cada vez que julgas alguém, a única coisa que fazes é expressar tua opinião pessoal, e isso é uma perda de energia, é puro ruido. Recorda que tudo que te incomoda nos outros é uma projeção que não venceu em ti mesmo.

(Texto Taoista)

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Observar

Foto: Araquém Alcântara 


"Como você pode procurar por algo que você já tem? 

Não é a busca que você precisa. 

Você precisa aprender a arte de observar, experimentar o que você já tem."

(Maharaji)

sábado, 5 de julho de 2014



foto: Alice Kohler



Voto de Bodisatva

Seres são inumeráveis faço o voto de salvá-los
Apegos são inexauríveis faço o voto de extingui-los
Portais do Darma são ilimitados faço o voto de aprendê-los
O Caminho de Buda é insuperável faço o voto de me tornar este Caminho.


Refúgio nas Três Jóias

Retorno e me abrigo em Buda
Retorno e me abrigo no Darma
Retorno e me abrigo na Sanga


Foto: Alice Kohler

terça-feira, 1 de julho de 2014

Ser bom - ser bonzinho

"Ser bonzinho é fácil. Basta concordar com tudo.
Difícil é ser bom, discordar com firmeza, mas com elegância quando a situação assim o exige.

Ser bonzinho é fácil. Basta ter sempre nos lábios um sorriso amarelo e um ar meio desamparado.
Difícil é ser bom e ter coragem para verbalizar que está zangado, magoado ou decepcionado, citar os motivos claramente, mas sem fazer tempestade.

Ser bonzinho é fácil. Basta adotar a lei das mentirinhas brancas. Difícil é ser bom e dizer a verdade da sua consciência, ainda que isso possa chocar algumas pessoas.

Ser bonzinho é fácil. Basta ficar em cima do muro ou ficar como um camaleão, assumindo sempre a cor que os outros esperam que você assuma.
Difícil é ser bom, descer do muro e não ter vergonha de assumir a sua verdadeira "cor".

Ser bonzinho é fácil. É dar o melhor no seu serviço somente quando seu chefe ou patrão estiverem presentes.
Ser bom é dar o seu melhor sempre, mesmo na ausência deles.

Ser bonzinho é fácil. Escolha seus candidatos pelo parentesco, pela amizade ou visando algum favorecimento pessoal. Ser bom é escolher o candidato mais capacitado, acompanhar seu desempenho e cobrar as promessas de campanha.

Ser bonzinho é fácil. Basta dar liberdade aos seus filhos e quando eles ficarem espaçosos e chatos, acalme-os comprando presentes e fazendo as suas vontades.
Ser bom é marcar presença, estudar junto, brincar junto, conhecer seus amigos, estabelecer limites e acima de tudo demonstrar o seu amor, mesmo que eles o considerem "por fora" e muito "careta".

Ser bonzinho é fácil. Faça uma média com seus velhos, ligue de vez em quando para saber se está tudo bem, mas sem muito envolvimento.
Ser bom é devolver para os seus velhos pelo menos parte da dedicação e do amor de uma vida inteira para que você fosse hoje a pessoa que você é. 

Ser bonzinho é fácil. Basta ir à missa ou ao culto, uma vez por semana, deixar a sua contribuição e sair de lá com sentimento de "obrigação cumprida".
Ser bom é viver o culto, viver a missa, trazer o "sagrado" para o seu dia-a-dia através de suas atitudes e de seus exemplos, dentro ou fora de casa.

Enfim, ser bonzinho é viver pegando atalhos para chegar mais rápido com um mínimo de amolação.
Ser bom dá trabalho, é jamais se desviar da avenida principal do seu destino, ainda que ela seja bem mais longa e exija alguns esforços extraordinários da sua parte.

O bonzinho apenas passa pelo mundo.
O bom transforma-se a si mesmo e muda o mundo."


(Monja Isshin Sensei)

segunda-feira, 30 de junho de 2014

Trazendo a mente para casa



foto: Luis Julgmann Girafa
Há cerca de 2.500 anos, um homem que estivera procurando a verdade por muitas e muitas vidas, chegou a um lugar tranquilo na Índia setentrional, e se sentou sob uma árvore. Continuou sentado ali com imensa determinação e jurou não se levantar até que tivesse encontrado a verdade. Ao anoitecer, conta-se, ele havia dominado todas as forças escuras da ilusão. E cedo na manhã seguinte, quando a estrela Vênus brilhou no céu do alvorecer, o homem foi recompensado por sua infinita paciência, disciplina e perfeita concentração, atingindo a meta final da existência humana, a iluminação. Nesse momento sagrado, a própria terra estremeceu, como que “embriagada de felicidade”, e segundo dizem as escrituras “ninguém mais em parte alguma estava irado, doente ou triste; ninguém mais fazia o mal, ninguém mais era orgulhoso; o mundo ficou muito quieto, como se tivesse atingido a plena perfeição”. Esse homem ficou conhecido como o Buda. Aqui, o mestre vietnamita Thich Nhat Hanh dá uma bela descrição da iluminação do Buda:

  Gautama sentiu como se uma prisão que o confinava há milhares de vidas tivesse se rompido. A ignorância fora seu carcereiro. Devido à ignorância sua mente estivera obscurecida, como a lua e as estrelas ficam escondidas atrás de nuvens de tempestade. Enevoada por infinitas ondas de pensamentos ilusórios, a mente tinha dividido, de maneira falsa, a realidade em sujeito e objeto, o eu e os demais, existência e não existência, nascimento e morte, e dessas discriminações surgiram concepções erradas – as prisões dos sentimentos, do desejo, do apego, do vir a ser. O sofrimento do nascimento, da velhice, da doença e da morte apenas engrossou as paredes da prisão. A única coisa a fazer era pegar o carcereiro e olhar seu verdadeiro rosto. O carcereiro era a ignorância... Quando ele se foi, o cárcere desapareceu e nunca mais se reconstruiu.




O que o Buda viu foi que a ignorância sobre a nossa verdadeira natureza é a raiz de todos os tormentos do samsara, e a raiz da ignorância em si é a tendência habitual da nossa mente para distração. Para terminar com distração da mente era preciso acabar com o próprio samsara, a chave para isso, ele percebeu, era trazer a mente de volta à sua verdadeira natureza pela prática da meditação.

A dádiva de aprender a meditar é o maior presente que você pode se dar nesta vida. Porque é apenas através da meditação que você pode empreender a jornada para descobrir sua verdadeira natureza e assim encontrar a estabilidade e a confiança de que necessitará para viver e morrer bem. 

A meditação é o caminho para a iluminação.



(Sogyal Rinpoche - O livro tibetano do viver e do morrer)

sábado, 28 de junho de 2014

O futebol como religião secular mundial

    
    
A presente Copa Mundial de Futebol que ora se realiza no Brasil, bem como outros grandes eventos futebolísticos, semelhante ao mercado, assumem características, próprias das religiões. Para milhões de pessoas o futebol, o esporte que possivelmente mais mobiliza no mundo, ocupou o lugar que comumente detinha a religião. Estudiosos da religião, somente para citar dois importantes como Emile Durkheim e Lucien Goldmann, sustentam que “a religião não é um sistema de idéias; é antes um sistema de forças que mobilizam as pessoas até levá-las à mais alta exaltação”(Durckheim).
A fé vem sempre acoplada à religião. Esse mesmo clássico afirma em seu famoso “As formas elementares da vida religiosa: ”A fé é antes de tudo calor, vida, entusiasmo, exaltação de toda a atividade mental, transporte do indivíduo para além de si mesmo”(p.607). E conclui Lucien Goldamnn, sociólogo da religião e marxista pascalino:”crer é apostar que a vida e a história tem sentido; o absurdo existe mas ele não prevalece”.
Ora, se bem reparmos o futebol para muita gente preenche as características religiosas: fé, entusiasmo, calor, exaltação, um campo de força e uma permanente aposta de que seu time vai triunfar.
A espetacularização da abertura dos jogos lembra uma grande celebração religiosa, carregada de reverência, respeito, silêncio, seguido de ruidoso aplauso e gritos de entusiasmo. Ritualizações sofisticadas, com músicas e encenações das várias culturas presentes no país, apresentação de símbolos do futebol (estandartes e bandeiras), especialmente a taça que funciona como um verdadeiro cálice sagrado, um santo Graal buscado por todos. E há, valha o respeito, a bola que funciona como uma espécie de hóstia que é comungada por todos.
No futebol como na religião, tomemos a católica como referência, existem os onze apóstolos (Judas não conta) que são os onze jogadores, enviados para representar o país; os santos referenciais como Pelé, Garrincha, Beckenbauer e outros; existe outrossim um Papa que é o presidente da Fifa, dotado de poderes quase infalíveis. Vem cercado de cardeais que constituem a comissão técnica responsável pelo evento. Seguem os arcebispos e bispos que são os coordenadores nacionais da Copa. Em seguida aparece a casta sacerdotal dos treinadores, estes portadores de especial poder sacramental de colocar, confirmar e tirar jogadores. Depois emergem os diáconos que formam o corpo dos juízes, mestres-teólogos da ortodoxia, vale dizer, das regras do jogo e que fazem o trabalho concreto da condução da partida. Por fim vem os coroinhas, os bandeirinhas que ajudam os diáconos.
O desenrolar de uma partida suscita fenômenos que ocorrem também na religião: gritam-se jaculatórias (bordões), chora-se de comoção, fazem-se rezas, promessas divinas (o Felipe Scolari, treinador brasileiro, cumpriu a promessa de andar a pé uns vinte km até o santuário de Nossa Senhora do Caravaggio em Farroupilha caso vencesse a Copa como de fato venceu), figas e outros símbolos da diversidade religiosa brasileira. Santos fortes, orixás e energias do axé são aí evocadas e invocadas.
Existe até uma Santa Inquisição, o corpo técnico, cuja missão é zelar pela ortodoxia, dirimir conflitos de interpretação e eventualmente processar e punir jodadores, como Luiz Suarez, o uruguaio que mordeu um jogador italiano e até times inteiros.
Como nas religiões e igrejas existem ordens e congregações religiosas, assim há as “torcidas organizadas”. Elas tem seus ritos, seus cânticos e sua ética.
Há famílias inteiras que escolhem morar perto do Clube do time que funciona como uma verdadeira igreja, onde os fiéis se encontram e comungam seus sonhos. Tatuam o corpo com os símbolos do time; a criança nem acaba de nascer que a porta da encubadora já vem ornada com os símbolos do time, quer dizer, recebe já ai o batismo que jamais deve ser traído.
Considero razoável entender a fé como a formulou o grande filósofo e matemático cristão Blaise Pascal, como uma aposta: se aposta que Deus existe tem tudo a ganhar; se de fato não existe, não tem nada a perder. Então é melhor apostar de que exista. O torcedor vive de apostas (cuja expressão maior é a loteria esportiva) de que a sorte beneficiará o time ou de que algo, no último minuto do jogo, tudo pode virar e, por fim, ganhar por mais forte que for o adversário. Como na religião há pessoas referenciais, da mesma forma vale para os craques.
Na religião existe a doença do fanatismo, da intolerância e da violência contra outra expressão religiosa; o mesmo ocorre no futebol: grupos de um time agridem outros do time concorrente. Ônibus são apedrejados. E pode ocorrer verdadeiros crimes, de todos conhecidos, que torcidas organizadas e de fanáticos que podem ferir e até matar adversários de outro time concorrente.
Para muitos, o futebol virou uma cosmovisão, uma forma de entender o mundo e de dar sentido à vida. Alguns são sofredores quando seu time perde e eufóricos quando ganha .
Eu pessoalmente aprecio o futebol por uma simples razão: portador de quatro próteses nos joelhos e nos fêmures, jamais teria condições de fazer aquelas corridas e de levar aqueles trancos e quedas. Fazem o que jamais poderia fazer, sem cair aos pedaços. Há jogadores que são geniais artistas de criatividade e habilidade. Não sem razão, o maior filósofo do século XX, Martin Heidegger, não perdia um jogo importante, pois via, no futebol a concretização de sua filosofia: a contenda entre o Ser e o ente, se enfrentando, se negando, se compondo e constituindo o imprevisível jogo da vida, que todos jogamos.

Leonardo Boff - Teólogo
(texto retirado de LeonardoBoff.com - foto: Garrincha (Google)