sexta-feira, 14 de novembro de 2014

O Darma que ofereço tem a prática da não prática, a ação da não ação



Pai levando filho para escola - rio Tapajós - foto Alice Kohler


Nós pensamos que ação e não ação são duas coisas diferentes. Quando dizemos: “Não fique apenas sentado, faça algo!”, estamos instando as pessoas a agirem, mas, se alguém está num estado deplorável, se não tem paz suficiente, entendimento suficiente, inclusividade suficiente, se ainda tem muita raiva e medo, então, não apenas suas ações não terão valor como podem, até mesmo, ser prejudiciais. A qualidade da nossa ação depende da qualidade do nosso ser: a ação hábil surge da base do ser; e ser é não ação. Assim, a calma, a mente atenta, a qualidade totalmente presente do nosso ser, a qualidade de nossa não ação, já é um tipo de “ação” neste sentido.

Há aqueles, entre nós, que parecem não fazer muito, mas sua presença é praticamente crucial para o bem-estar da situação imediata em si mesma assim como para todo o mundo. Talvez haja alguém, numa família, que não esteja o tempo todo ocupado, que não ganhe muito dinheiro, mas cuja ausência, ainda assim, seria muito problemática para a família, pois aquela possa contribui com a sua não ação, com a qualidade do seu ser. Imagine uma embarcação de refugiados apanhados numa tempestade em alto-mar. Se todos entrassem em pânico, começariam a pular e correr de um lado par o outro, apressada e amedrontadamente, podendo desestabilizar o barco e, até mesmo, causar seu naufrágio. Se houvesse, porém, uma única pessoa que mantivesse a calma e que, com sua equanimidade, dissesse: “Queridos amigos, permaneçam onde estão e fiquem sentados quietos”, tal pessoa poderia salvar o grupo todo. Mesmo que não “fizesse nada”, apenas mantivesse a calma e ajudasse os demais a recobrarem a sua, dessa maneira, uma catástrofe seria evitada. Isto é hábil não ação, a qualidade do ser, a base de toda boa ação.

(Thich Nhat Hanh - Ação Pacífica, Coração Aberto - As lições do Sutra do Lótus)

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