quinta-feira, 27 de março de 2014

A onda e água



Um exemplo que usamos freqüentemente no budismo é o da onda e da água. A onde nasce do oceano e, quando você observa o fenômeno da onda, você vê a existência de um começo e de um fim. Você vê a subida e a descida, você vê a presença e a não presença da onda. Antes de surgir, parece que a onda não existia e, depois de descer também não vemos sua existência. Distinguimos entre uma e outra onda. Uma onda pode ser mais bonita, maior ou menor que outra onda. Então, em se tratando do mundo dos fenômenos, temos todo tipo de conceitos: começo e fim; alto e baixo; mais bonito e menos bonito – e isto cria muito sofrimento. Mas, ao mesmo tempo, sabemos que a onda é  água também. Uma onde pode viver sua vida tanto como onda quanto como água, ao mesmo tempo. Como uma onda, pertence ao mundo dos fenômenos: ela tem um começo, um fim, um aumentar, um diminuir. Ela se diferencia das outras ondas. Mas se ela tem tempo para se sentar e tocar em sua profunda, ela perceberá que é água. Ela não é apenas onda, é também água. No momento que percebe que é água, ela deixa de sofrer. Não tem mais medo de subir e descer. Não se preocupa em estar lá ou não estar mais. A água representa o mundo numênico, o mundo do não nascimento e da não morte, não vinda e não ida.

Se você continuar se aprofundando, verá que o que fazemos juntos, o que falamos juntos, o que pensamos juntos terá um efeito sobre nós e sobre o mundo, agora e depois. No ensinamento budista, nada é estritamente individual e nada é estritamente coletivo. Estas noções são relativas.

Você pode pensar que seu corpo é uma possessão individual, mas seu corpo pertence igualmente ao mundo. Imagine que você é um motorista e sua segurança depende de seus nervos ópticos. Você pensa neles como algo estritamente individual; eles pertencem a você e você é aquele que se beneficia e é responsável por eles. Mas se você for um motorista de ônibus, todos nós que sentamos no ônibus confiamos muito em seus nervos ópticos. Nossas vidas dependem de você. Este é o motivo para a expressão “É minha própria vida!” ser ingênua.  Nós estamos em você e você está em nós. Nós entre-somos.

(Thich Nhat Hanh – Corpo e mente em harmonia)



Um comentário:

  1. Há um pequeno erro de grafia no texto. Ao invés de "onde" deveria ser "onda".

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Arte: Hugo Pullen